Geral

Por que os condomínios trocam segurança por desconto?

person Cíntia Monguilhott
calendar_today

Se o condomínio tem evidências concretas de que a gestão funciona, por que, ainda assim, em uma assembleia, a menor oferta em uma guerra de preços entre administradoras passa a parecer a melhor escolha?

Essa pergunta deveria incomodar todos nós que atuamos no mercado condominial. E a resposta, por mais desconfortável que seja, não está apenas no comportamento do cliente. Parte do problema também está nas administradoras. 

Muitas vezes, entregamos valor todos os dias, mas não conseguimos traduzir esse valor de forma clara, concreta e perceptível para síndicos e principalmente para condôminos. O condomínio recebe prestação de contas em dia, certidões negativas regulares, controle da inadimplência, acompanhamento técnico, suporte jurídico, orientação financeira, previsibilidade nos processos e segurança operacional. Mas, quando tudo isso funciona bem, tende a parecer apenas “obrigação básica”.

Publicidade

E talvez seja mesmo obrigação. O ponto é outro: aquilo que parece básico quando está funcionando costuma revelar seu verdadeiro valor apenas quando falha.

Uma certidão negativa regularizada não é apenas um documento. Ela representa segurança. Uma inadimplência controlada não é apenas uma cobrança em andamento. Ela representa fluxo de caixa, previsibilidade e proteção para os condôminos que pagam em dia. Um saldo que cresce ao longo dos anos não é apenas um número positivo no extrato. Ele pode ser a evidência de uma gestão responsável, de planejamento, de controle, de valorização do patrimônio e de decisões bem conduzidas.

O problema é que, se esse valor não é comunicado ao longo da relação, ele fica invisível. E valor invisível não compete com preço visível.

Na hora da assembleia, diante de três propostas, o que aparece de forma mais simples para comparação? A taxa mensal. Uma administradora cobra determinado valor, outra oferece um desconto, uma terceira reduz ainda mais. Em poucos minutos, todo o trabalho técnico, toda a segurança construída, todo o histórico de entrega e todo o risco de uma troca mal avaliada podem ser resumidos a uma planilha de preços.

E, nesse momento, se o valor não foi percebido antes, o preço decide.

Isso não significa que o cliente esteja errado em buscar economia. Condomínio precisa cuidar do dinheiro dos condôminos, e comparar propostas faz parte de uma gestão responsável. O equívoco está em comparar apenas o valor da taxa, sem medir o que está incluído, o que está em risco e o que pode ser perdido. 

Publicidade

Uma taxa menor pode parecer economia imediata. Mas é preciso perguntar: economia de quê e a que custo? Quando uma assembleia passa a considerar decisiva uma diferença de R$1,15 por unidade, como aconteceu em um caso recente, o mercado precisa refletir sobre o nível de desvalorização a que chegou a administração condominial. Estamos tratando de trocar segurança, histórico, conhecimento técnico e previsibilidade por uma redução quase simbólica na cota individual. Se essa troca gerar retrabalho, possíveis falhas em obrigações legais,
atrasos, insegurança no atendimento, desorganização financeira, esse desconto não faz sentido algum.

É claro que existem situações em que a troca da administradora se justifica. Administradoras falham, processos podem não funcionar, atendimentos podem ser insuficientes e a qualidade da prestação de serviço pode deixar de atender às necessidades do condomínio. Nesses casos, a substituição é legítima e, muitas vezes, necessária. O problema é quando a decisão não nasce de uma falha concreta, de uma perda de confiança ou de uma entrega insatisfatória, mas apenas da menor taxa mensal. Quando o único argumento é o preço, sem análise de risco,
de histórico, de segurança operacional e de impacto para a gestão, a escolha deixa de ser estratégica e passa a ser apenas uma aposta no desconto. E há ainda situações mais delicadas, quando interesses individuais, vantagens pessoais ou relações pouco transparentes podem influenciar decisões que deveriam ser exclusivamente técnicas e coletivas — mas esse é um tema que merece um artigo próprio.

Por isso, talvez a grande reflexão para o nosso mercado seja: estamos conseguindo mostrar o valor da administração condominial antes que o cliente precise decidir entre propostas concorrentes?

Não basta entregar bem. É preciso demonstrar bem. Não basta resolver problemas. É preciso mostrar o impacto das soluções. Não basta manter a operação em ordem. É preciso traduzir essa ordem em linguagem de risco reduzido, economia protegida, segurança jurídica, tranquilidade para o síndico e valorizaçãodo patrimônio coletivo.

O cliente compra preço quando não consegue enxergar valor. E, se ele não enxerga valor, precisamos ter maturidade para reconhecer que talvez não tenhamos comunicado esse valor da forma certa, no tempo certo e com os indicadores certos.

O desafio das administradoras não é apenas prestar um bom serviço. É tornar esse serviço compreensível, mensurável e percebido. 

Porque, no fim, quando o valor aparece, o preço deixa de ser o único argumento. E quando o preço é o único argumento, todos perdem: a administradora, o condomínio e o próprio mercado.

Foto de Cíntia Monguilhott
Escrito por

Cíntia Monguilhott

Diretora de Condomínios da Imóveis Crédito Real, empresa com mais de 90 anos de atuação no mercado imobiliário. Administradora de Empresas, com pós-graduação em Direito Imobiliário e MBA em Marketing Digital, atua há mais de uma década na gestão condominial, com foco em planejamento financeiro, eficiência operacional, inovação e uso de tecnologia na administração de condomínios. Também foi professora em cursos de pós-graduação em Gestão Condominial e Síndica 5 Estrelas, com ampla experiência em gestão, liderança de equipes e implementação de soluções estratégicas para redução de custos e melhoria da governança condominial.

Ver Perfil arrow_forward

Comentários (0 comentários)

Deixe seu comentário

Artigos Relacionados