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Antes de gritar, ela avisou os vizinhos: a lição de convivência condominial que uma fã de 13 anos deu a Teresina.

person Gabriele Fiel
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Uma carta manuscrita, deixada embaixo da porta de doze apartamentos, virou o principal assunto de um condomínio na Zona Sul de Teresina na manhã da última sexta-feira (11). Bianca Araújo, de 13 anos, percorreu os corredores do bloco onde mora com a mãe, Vanessa Carvalho, e a irmã, antes de ir para a escola, para avisar aos vizinhos que faria barulho durante a madrugada seguinte: o Stray Kids, grupo sul-coreano do qual é fã desde os seis anos, se apresentaria como headliner do Rock in Rio, no Palco Mundo, com transmissão que a adolescente assistiria de casa.

O gesto nasceu de um problema concreto de convivência: o regulamento interno do condomínio onde a família mora proíbe barulho após as 22h, e o show estava previsto para começar por volta da meia-noite. Diante do risco de gerar reclamações formais ou até o acionamento do síndico, Bianca optou por antecipar o diálogo. Na carta, ela pediu compreensão caso os vizinhos ouvissem gritos, cantos e choro durante a apresentação, e foi além: compartilhou um momento pessoal de sua infância para explicar por que o grupo tem esse peso emocional em sua vida. "Se ouvirem uma menina gritar, cantar alto, chorar e se emocionar, fiquem tranquilos, não chamem a polícia e não reclamem para o síndico. Sou só eu!", escreveu.

O caso, classificado como simpático pelos moradores que o receberam, ilustra um dos pontos mais sensíveis da vida em condomínio: o barulho é uma das causas mais recorrentes de desentendimento entre vizinhos e de abertura de processos internos de advertência. Regulamentos que restringem ruído no período noturno, como o citado por Bianca, são cláusulas praticamente universais em convenções condominiais brasileiras, situadas geralmente entre 22h e 8h, e sua aplicação costuma gerar atritos quando o morador que gera o barulho não se comunica previamente com quem pode ser afetado.

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É justamente nesse ponto que a atitude da adolescente se destaca do fluxo mais comum de conflitos condominiais. Em vez de aguardar uma reclamação, uma advertência do síndico ou a intervenção do conselho fiscal, a solução veio pela via da comunicação direta e antecipada, recurso que síndicos profissionais e administradoras vêm recomendando com mais frequência como forma de reduzir a judicialização de conflitos de vizinhança e o desgaste em assembleias. A mãe da adolescente relatou que ao menos dois vizinhos a abordaram pessoalmente para manifestar apoio à iniciativa, e que a vizinha Simone Alves, que recebeu a carta por baixo da porta, classificou o gesto como espontâneo e comovente, mesmo sem conhecer Bianca pessoalmente.

Para viabilizar o acompanhamento completo da apresentação, Vanessa assinou o serviço de streaming que transmitiu o festival, já que a família não tinha condições financeiras de comparecer ao evento no Rio de Janeiro. A mãe também preparou salgadinhos e doces coreanos para tornar a experiência mais especial para as duas filhas, que assistiram ao show de casa.

Do ponto de vista da gestão condominial, o episódio de Teresina funciona como um estudo de caso prático sobre prevenção de conflitos por ruído, tema recorrente em pautas de síndicos, especialmente durante grandes eventos que se estendem pela madrugada, como shows internacionais, jogos de Copa do Mundo ou réveillons. Comunicação prévia, ainda que informal, tende a reduzir a chance de registro de ocorrência, notificação extrajudicial ou multa por infração ao regulamento interno, instrumentos que administradoras costumam acionar apenas depois de reincidência ou ausência de diálogo entre as partes.

O caso também reforça um debate mais amplo sobre o papel do síndico como mediador, e não apenas como fiscalizador, em situações de exceção pontual. Especialistas em gestão condominial costumam recomendar que condomínios criem canais formais para que moradores comuniquem com antecedência eventos que possam gerar ruído fora do horário do regulamento, festas de aniversário, mudanças, obras emergenciais ou, como neste caso, transmissões esportivas e culturais de grande apelo emocional, reduzindo a necessidade de intervenção disciplinar posterior.

Para o público de síndicos, moradores e administradoras que acompanham o Portal SBM Forcondo, o episódio de Bianca Araújo é um lembrete de que boa parte dos conflitos de convivência pode ser evitada com diálogo simples e antecedência, sem custo para o condomínio e sem desgaste para as partes envolvidas. Fica também o alerta para que regulamentos internos sobre ruído estejam claros e acessíveis a todos os moradores, e que síndicos avaliem a criação de canais rápidos de aviso prévio para situações excepcionais, cada vez mais comuns em uma rotina marcada por eventos ao vivo, transmissões e datas comemorativas que fogem do horário convencional de silêncio.

 

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Fonte: G1

Foto de Gabriele Fiel
Escrito por

Gabriele Fiel

Colunista do Portal SBM.

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