Condomínio de luxo em Ipanema (SC) terá robô que pega elevador sozinho.
Buscar uma encomenda na portaria pode deixar de ser tarefa do morador para virar rotina automatizada do próprio prédio. Em Itapema, no litoral de Santa Catarina, o empreendimento de luxo Edify One, em construção na orla da Meia Praia, vai adotar um robô autônomo capaz de chamar o elevador sozinho e levar pequenos volumes da recepção até a porta de cada apartamento, sem acompanhamento humano durante o trajeto.
O funcionamento foi detalhado pela equipe do empreendimento nesta segunda-feira, 7 de setembro de 2026. O processo começa quando a portaria recebe uma encomenda: a equipe confere e libera o volume, que é colocado em um compartimento do robô. A partir daí, o equipamento assume a operação, aciona o elevador, sobe até o pavimento correspondente e segue até a unidade indicada. Concluída a entrega, retorna sozinho à base, onde aguarda a próxima solicitação.
A integração direta com os elevadores diferencia a solução de outras iniciativas já vistas no mercado imobiliário brasileiro. Sistemas de automação predial costumam se limitar a fechaduras inteligentes, câmeras e controle de acesso, mas raramente comandam o deslocamento vertical de um equipamento entre pavimentos residenciais. Para o empreendimento, a proposta reduz a necessidade de moradores descerem até a portaria e limita a circulação de entregadores e terceiros nas áreas privativas, argumento que pesa especialmente em empreendimentos de altíssimo padrão, nos quais segurança e privacidade valem tanto quanto metragem e vista para o mar.
"Em um empreendimento de altíssimo padrão, tecnologia precisa resolver uma necessidade real do morador. Levar uma encomenda da recepção até um apartamento é uma tarefa operacional e repetitiva", afirma Luiz Feitosa, sócio do Edify One e especialista em mercado imobiliário com 35 anos de atuação no setor. Segundo ele, quando a entrega é autônoma, a circulação de terceiros no prédio diminui e a privacidade da área residencial aumenta. "A equipe continua disponível para aquilo que realmente exige atenção, decisão e atendimento personalizado", diz o executivo.
A iniciativa acompanha uma tendência que já se consolidava fora do ambiente residencial. Robôs de entrega ganharam espaço primeiro em campi corporativos, centros logísticos e operações de última milha em vias públicas, e agora migram para dentro de prédios e condomínios. Estudo da consultoria MarketsandMarkets projeta que o mercado global de robôs de entrega salte de 800 milhões de dólares em 2025 para 3,24 bilhões em 2030, crescimento médio anual estimado em 32,4%. Na Argentina, o correio nacional já usa 240 robôs para triagem de até 9 mil encomendas por hora. No Edify One, o uso será mais restrito: o equipamento operará só dentro do condomínio e sempre dependerá da liberação da equipe de recepção antes de cada entrega, preservando uma checagem humana no processo.
O robô é um item entre vários no pacote tecnológico do empreendimento, que terá segurança monitorada por inteligência artificial, automação residencial nas unidades e carregadores para veículos elétricos nas vagas privativas, além de geradores para todo o edifício e sistema de Building Maintenance Unit (BMU) para manutenção da fachada. Com 45 pavimentos e 32 mil m² de área construída, terá 68 apartamentos, entre 264 m² e 966 m² de área privativa, com quatro a seis suítes. Os preços vão de 14 a 54 milhões de reais, com VGV estimado em 650 milhões; segundo o último levantamento da incorporadora, 40% das unidades já haviam sido vendidas. Entre os sócios está a NR Sports, empresa de Neymar Pai. A entrega está prevista para dezembro de 2028.
Para o mercado condominial, o caso do Edify One antecipa um debate que tende a se espalhar além dos empreendimentos de luxo. A chegada de robôs em áreas comuns levanta questões de gestão que vão além da tecnologia: convenções e regimentos internos, hoje pensados para o uso humano de elevadores, ainda não costumam prever a circulação de equipamentos autônomos, o que pode exigir atualização de normas conforme a solução se popularizar. Também entram em pauta a manutenção do equipamento, contratos de suporte técnico, seguros que cubram falhas durante o trajeto do robô e a segurança cibernética de um sistema conectado à rede do prédio e à central de elevadores.
Por ora, a automação da entrega segue concentrada em empreendimentos de padrão elevado, onde o investimento em tecnologia embarcada faz parte do posicionamento comercial do produto. Mas a queda de custo observada em outras automações prediais, de fechaduras digitais a câmeras com inteligência artificial, sugere que soluções semelhantes podem chegar a condomínios de outros perfis nos próximos anos. Síndicos, administradoras e moradores que acompanham esse movimento devem observar não só o preço de aquisição, mas os custos de manutenção, a adaptação da infraestrutura predial e as implicações jurídicas de operar, em áreas comuns, um sistema que decide sem supervisão humana direta em cada etapa.
Fonte: Exame