Condomínio em Uberlândia registra explosão de gás por mangueira fora da norma.
Uma explosão provocada por vazamento de gás deixou uma moradora de 44 anos ferida na tarde desta terça-feira (4), no condomínio Spazio, no bairro Gávea Sul, em Uberlândia (MG). Segundo o Corpo de Bombeiros, a mulher sofreu queimaduras no rosto e na parte superior do corpo, foi atendida no local e encaminhada ao pronto-socorro. O acidente ocorreu dentro do apartamento, enquanto um alimento era aquecido no forno, e mobilizou equipes da corporação no local.
A hipótese dos bombeiros aponta para um componente banal da cozinha. De acordo com o sargento Mourão, um dos militares que atenderam a ocorrência, havia uma mangueira passando atrás do fogão com forno. A peça teria se soltado, provocando o vazamento e a ignição em seguida, por conta do forno já aquecido. A versão do síndico do condomínio, Sílvio, converge para o mesmo ponto: a mangueira estava muito próxima do fogão, esquentou e rompeu. A moradora foi socorrida por Luana Fonseca, vizinha que ouviu o estouro, subiu até o apartamento e retirou a vítima de dentro do imóvel já tomado pelo fogo, apoiada em treinamentos que havia feito anteriormente.
O detalhe técnico que transforma o caso em alerta setorial apareceu horas depois. Ainda segundo a corporação, o apartamento utilizava mangueira de borracha, e não metálica, fator que pode ter influenciado na explosão. É uma distinção pouco conhecida por moradores e frequentemente ignorada até por gestores prediais. Como explicou o bombeiro militar Fernando Gonzaga, a mangueira indicada para condomínios abastecidos por gás encanado não é a peça de borracha vendida em supermercados, mas o tubo flexível metálico, em malha de latão ou aço, que oferece resistência muito maior ao calor, à pressão e ao desgaste. A mangueira de borracha certificada tem seu lugar, mas em casas abastecidas por botijões de GLP instalados em área externa, cenário completamente diferente do de um edifício com rede coletiva.
A diferença não é estética. Em prédios residenciais, o gás natural canalizado ou a central de GLP alimentam uma rede fixa de tubulações metálicas que percorre toda a edificação e chega a cada unidade por medidores individuais. O ponto de saída dentro do apartamento é a fronteira entre o sistema coletivo, sob responsabilidade do condomínio, e a instalação privativa, sob responsabilidade do morador. É justamente nesse trecho final, o mais curto de todos, que se concentram a maioria dos improvisos: mangueiras vencidas, peças compradas sem certificação do Inmetro, conexões escondidas atrás de móveis embutidos e sem qualquer acesso para inspeção.
Do ponto de vista normativo, o terreno é bem delimitado. A ABNT NBR 15526 estabelece os requisitos de projeto, execução e ensaio das redes internas de distribuição de gases combustíveis e orienta manutenção preventiva periódica, com teste de estanqueidade, avaliação de conexões, registros e válvulas e verificação da integridade das tubulações. Complementam o conjunto a NBR 13103, sobre instalação de aparelhos a gás em ambientes residenciais, e a NBR 13523, sobre centrais de GLP. Mangueiras e reguladores certificados carregam prazo de validade impresso, em geral de cinco anos, e devem ser substituídos ao vencimento ou ao primeiro sinal de desgaste.
Para o síndico, o episódio de Uberlândia sinaliza um risco de responsabilização que costuma ser subestimado. Ainda que o acidente tenha ocorrido dentro de uma unidade privativa, a jurisprudência e a doutrina condominial vêm consolidando o entendimento de que a ausência de manutenção documentada da rede coletiva, de laudo de estanqueidade e de Anotação de Responsabilidade Técnica pesa na apuração de culpa quando há vítimas. Gestão de gás não se resume a contratar a concessionária: envolve manter cronograma de inspeções, arquivar laudos, comunicar formalmente os condôminos sobre as exigências técnicas do sistema e registrar em ata as orientações repassadas.
O caminho prático passa por medidas de baixo custo e alto retorno. Campanhas internas de conscientização sobre o tipo correto de mangueira, mutirões de vistoria por empresa especializada com relatório por unidade, inclusão de cláusula específica no regimento interno e checagem obrigatória do ponto de gás nas trocas de morador reduzem drasticamente a exposição do condomínio. No mercado, cresce a oferta de contratos de manutenção preventiva de rede de gás com relatório fotográfico e rastreabilidade de validade de componentes, serviço que ainda enfrenta resistência orçamentária em assembleias, mas tende a se tornar padrão.
Até o fechamento desta edição, a reportagem de origem informava que o estado de saúde da moradora aguardava posicionamento do SAMU e que a apuração das causas seguia em andamento. Para síndicos e administradoras, porém, a lição já está posta: entre a tubulação metálica do prédio e a boca do fogão existe um trecho de poucos centímetros que concentra risco de vida, e ele raramente aparece no cronograma de manutenção.
Fonte: Paranaíba Mais