De Porto Alegre a Belo Horizonte: como uma quadrilha furtou apartamentos de luxo em 8 estados.
Em Porto Alegre (RS), no dia 7 de março, uma mulher se aproximou da portaria de um condomínio de alto padrão e teve o rosto reconhecido pelo sistema de segurança eletrônica do prédio. Um homem entrou logo atrás dela, aproveitando a liberação automática. Minutos depois, a dupla deixava o local com dinheiro, cheques, joias, bolsas de grife e um casaco de pele. O episódio é uma das cenas centrais de investigação revelada no domingo, 30 de agosto, pelo Fantástico, da Rede Globo, que expõe como uma quadrilha driblou sistemas de segurança e portarias para furtar dezenas de apartamentos de luxo em oito estados, sempre sem violência, entrando pela porta da frente.
Segundo a reportagem, o grupo não arrombava janelas nem confrontava seguranças: explorava falhas humanas e tecnológicas na checagem de visitantes. Em Belo Horizonte, em 27 de fevereiro, um suspeito se passou por morador, telefonou para a empresa de segurança do condomínio e trocou a própria foto no cadastro, abrindo caminho para outras duas pessoas. Em Porto Alegre, em 25 de abril, os criminosos aplicaram um golpe por telefone: uma mulher se identificou como moradora do apartamento 301 e pediu a liberação de uma suposta neta. No dia seguinte, outra integrante entrou no prédio dizendo ser essa neta, já autorizada pelo sistema, acompanhada de dois homens. Vasculharam um apartamento no oitavo andar e furtaram um cofre tão pesado que precisaram de um carrinho de compras para retirá-lo. O prejuízo estimado nesse caso ultrapassa R$ 800 mil em joias, dinheiro e armas.
As investigações, iniciadas há seis meses em Goiânia, apontam uma quadrilha com funções bem definidas. Victor Gabriel da Silva, o Fubeta, é apontado como chefe e "arquiteto" do esquema, responsável por planejar as ações sem participar diretamente das invasões. Segundo um delegado goiano, ele mantém ligação com uma facção criminosa paulista e viajava com frequência a destinos turísticos, aparecendo em imagens em Fernando de Noronha e na República Dominicana. Em áudio obtido pela reportagem, resume a lógica do grupo: "No crime, tudo que nós temos é nosso nome. Dinheiro é consequência." Outros integrantes atuavam como "olheiros", vigiando o entorno dos prédios, enquanto um membro financiava as viagens da equipe, ônibus, alimentação, combustível e pedágio.
A polícia identificou Vinícius Scarpari como elo entre os casos de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo, onde houve apenas tentativa frustrada. Especializado em arrombar cofres, ele responde a pelo menos 30 boletins de ocorrência e teria começado em 2020 mirando casas térreas; a partir de 2023 o grupo passou a focar prédios de luxo, o que exigiu mais conhecimento das rotinas de portaria. Foi preso na zona leste de São Paulo. Alberto Bernardo Alves já havia participado de uma tentativa de furto ao apartamento do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em Alagoas, em 2024, e está sob custódia em hospital na capital paulista. Renata Palermo, também apontada como integrante, segue foragida. A perícia encontrou ainda um elo físico entre os crimes: o mesmo carro alugado apareceu em câmeras de Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo.
Segundo a apuração, o grupo comprava dados pessoais e atas condominiais na deep web para localizar os apartamentos-alvo, cruzando essas informações com postagens em redes sociais que expunham rotina, viagens e bens de luxo dos moradores, método que permitia mapear poder aquisitivo e períodos de ausência. Em Goiânia, moradores atingidos relataram o impacto emocional das invasões: "a gente está exposto a uma situação onde achava que estava seguro", descreveu um deles. Outra vítima contou que o filho parou de dormir no próprio quarto, com medo de "ladrão".
O caso escancara uma vulnerabilidade que preocupa administradoras e síndicos: sistemas de reconhecimento facial e portarias remotas, cada vez mais comuns em condomínios de médio e alto padrão, dependem de protocolos humanos que também podem ser manipulados por engenharia social. A troca de fotos em cadastros mediante uma simples ligação, como em Belo Horizonte, e a liberação de visitantes com base apenas em um nome informado por telefone, como em Porto Alegre, mostram que a tecnologia por si só não substitui processos rígidos de confirmação, idealmente por contato direto com o morador, por canais previamente cadastrados.
Para síndicos e conselhos, o episódio reforça a importância de auditar os protocolos de liberação de visitantes junto às empresas de segurança eletrônica, restringir o acesso a atas e cadastros condominiais a pessoal autorizado e orientar moradores sobre os riscos de expor rotina e bens de valor nas redes sociais. A recomendação de especialistas em segurança predial é dupla: reforçar a checagem humana por trás de qualquer sistema automatizado e tratar dados condominiais com o mesmo cuidado dado a informações financeiras, foi o cruzamento desses dados com a exposição digital das vítimas que abriu a porta da frente para a quadrilha.
Fonte: G1