Erro no sistema da CSB gera conta de água de R$ 3 milhões em condomínio de Bauru, SP.
Moradores de um condomínio residencial em Bauru, no interior de São Paulo, foram surpreendidos na quinta-feira (20) com contas de água que variavam de R$ 8 mil a mais de R$ 3 milhões, resultado de uma falha no sistema da Companhia Saneamento de Bauru (CSB), concessionária que assumiu o atendimento ao cliente e a emissão de faturas do município no início de agosto, em substituição ao Departamento de Água e Esgoto (DAE). As cobranças, com vencimento previsto para 1º de outubro, chegaram por notificação bancária diretamente ao celular dos condôminos, antes mesmo de qualquer contato formal da companhia.
O caso mais emblemático é o da publicitária Laís Flores, moradora do condomínio, que recebeu um boleto em seu CPF no valor de R$ 2.986.613,30. Sua conta de água costuma ficar em torno de R$ 75 por mês. "Eu achei que tinha enxergado errado", relatou a moradora, que soube por meio de um alerta do próprio banco sobre a cobrança. Uma estimativa independente feita por moradores indicou que o valor cobrado equivaleria a um consumo de aproximadamente 100 milhões de litros de água, volume suficiente para abastecer uma única pessoa por mais de 1.800 anos, segundo os cálculos.
Ao verificar um grupo de mensagens do condomínio, Laís descobriu que não era a única afetada: pelo menos outros seis moradores relataram cobranças muito acima do padrão histórico de consumo, com valores que, somados, variam de R$ 8 mil a mais de R$ 3 milhões dentro do mesmo empreendimento. O professor Alexandre Cruz Nicolas, também condômino, confirmou ter recebido fatura com valor igualmente fora do comum. Além dos valores exorbitantes, parte dos moradores relatou ainda a emissão de contas em duplicidade, o que amplia a desconfiança em relação à confiabilidade do novo sistema de faturamento.
Segundo os relatos, a tentativa de contato direto com a CSB não teve retorno. Laís afirmou ter preenchido um formulário de atendimento no site da concessionária, mas não recebeu resposta até o fechamento desta matéria. "Continuo sem suporte", resumiu a moradora, que já buscou orientação jurídica para se resguardar de eventuais cobranças indevidas ou negativação de seu CPF.
O episódio ocorre em meio à transição de serviços entre o DAE, autarquia que historicamente respondia pela distribuição de água em Bauru, e a CSB, empresa que passou a administrar o atendimento comercial e a emissão de faturas a partir de 3 de agosto. Segundo comunicados da companhia, as contas de agosto foram emitidas com base na média histórica de consumo dos imóveis, por conta do período inicial de adaptação dos sistemas. A CSB chegou a reforçar publicamente que as faturas emitidas nesse período são válidas, mesmo em meio à mudança operacional.
Após a repercussão dos casos de cobrança milionária, a CSB se pronunciou formalmente, reconhecendo a falha no sistema e informando que o problema já foi identificado e corrigido. A concessionária também comunicou a suspensão da importação de dados de consumo até que uma análise minuciosa dos imóveis afetados seja concluída, medida que busca evitar a repetição do erro em outras faturas ainda não emitidas.
Para o mercado condominial, o episódio de Bauru expõe um risco recorrente em transições entre concessionárias de serviços essenciais: falhas de migração de dados capazes de gerar cobranças indevidas em escala, atingindo várias unidades de um mesmo condomínio ao mesmo tempo. Nesses casos, a atuação coordenada do síndico costuma ser decisiva — reunir os condôminos afetados e formalizar reclamação coletiva junto à concessionária e, se necessário, aos órgãos de defesa do consumidor evita que cada morador precise recorrer individualmente à Justiça.
Especialistas em direito do consumidor apontam que cobranças manifestamente desproporcionais ao histórico de consumo, como as de Bauru, não geram obrigação de pagamento nem autorizam corte no fornecimento ou negativação do CPF, conforme o Código de Defesa do Consumidor. Recomenda-se que os moradores guardem prints das cobranças, registrem protocolo de atendimento e, diante da ausência de resposta, procurem o Procon ou o órgão regulador do setor.
O caso reforça ainda a importância de hidrômetros individualizados e de sistemas de leitura auditáveis em condomínios, tema que já ganhava espaço em pautas do setor como forma de reduzir divergências de consumo e dar mais transparência às faturas. Para síndicos à frente de condomínios em municípios que atravessam troca de concessionária de água e esgoto, o episódio funciona como alerta: acompanhar o cronograma da transição, orientar os moradores sobre inconsistências nas primeiras faturas e manter canal direto com a nova prestadora pode evitar que um problema pontual vire crise coletiva de confiança.
Até o fechamento desta edição, a CSB não havia detalhado quantos imóveis foram afetados pela falha em todo o município, nem um prazo definitivo para a regularização das faturas dos condôminos envolvidos.
Fonte: G1