Esgoto a céu aberto há 10 anos: o pesadelo sem fim em Jundiapeba.
Um condomínio no bairro de Jundiapeba, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, voltou a ser palco de um problema que os moradores dizem enfrentar há mais de dez anos: o vazamento constante de esgoto a céu aberto. A situação se agravou nas últimas semanas e levou a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) a realizar uma vistoria no local em 2 de julho, que confirmou o lançamento de esgoto bruto no sistema de drenagem de águas pluviais do condomínio, um canal que deságua diretamente no Rio Tietê.
Segundo o síndico do empreendimento, Eduardo Jeferson de Arruda, o problema já foi comunicado formalmente à Sabesp, à própria Cetesb e ao Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae) em diversas ocasiões ao longo dos anos, sem que uma solução definitiva fosse apresentada. A recorrência do caso é tamanha que ele já foi tema de reportagens televisivas em janeiro do ano passado e também em 2014, o que evidencia, segundo moradores, a cronicidade de uma falha estrutural que o poder público e a concessionária não conseguiram equacionar.
A avaliação preliminar da Cetesb aponta que a origem do problema está na paralisação de uma estação elevatória do sistema de saneamento que atende a região. De acordo com relato do síndico, um técnico do órgão ambiental teria informado que uma das bombas da estação estava inoperante desde janeiro, e que um motor adicional falhou há cerca de um mês, comprometendo ainda mais a operação do equipamento. Sem o bombeamento adequado, o esgoto reflui e passa a extravasar diretamente para o sistema de drenagem pluvial, misturando efluente não tratado à água da chuva antes de chegar ao rio.
Diante da irregularidade constatada em vistoria, a Cetesb notificou a Sabesp para que adote imediatamente as providências necessárias e afirma que vai continuar acompanhando o caso até a efetiva implementação das medidas corretivas. Procurada, a Sabesp informou que reforçou as medidas operacionais e realizou intervenções adicionais no sistema de bombeamento da região, e assegura que o sistema opera normalmente e segue sob monitoramento contínuo, reafirmando compromisso com a preservação ambiental.
Para os moradores, no entanto, o problema é sentido no dia a dia muito antes de qualquer nota oficial. O síndico descreve o cheiro como insuportável, "dia após dia", o que obriga os residentes a manter janelas fechadas mesmo durante o calor e impede atividades simples, como crianças brincarem nas áreas externas do condomínio. A moradora Fernanda Fasolin Ferreira, que trabalha em regime de home office, relata que o odor a força a deixar a própria casa com frequência, o que prejudica diretamente sua rotina de trabalho e seu bem-estar. Um segurança que mora no condomínio relatou ainda um caso mais grave: a filha dele foi diagnosticada com verminose depois de cair no canal por onde escoa o esgoto.
O episódio de Jundiapeba não é um caso isolado, mas um retrato de um problema estrutural que afeta diversas regiões da Grande São Paulo, especialmente em períodos de chuva mais intensa, quando a rede de esgoto recebe um volume de água pluvial muito acima da capacidade projetada. A própria Prefeitura de Mogi das Cruzes já reconheceu, em nota técnica, que a mistura indevida entre redes de esgoto e de drenagem pluvial é uma das principais causas de extravasamentos na cidade, agravada pelo descarte incorreto de resíduos sólidos nas tubulações.
Para o setor condominial, o caso expõe um ponto sensível da relação entre administradoras, síndicos e concessionárias de saneamento: mesmo quando o condomínio cumpre suas obrigações e formaliza reclamações reiteradas junto aos órgãos competentes, a resolução de um problema de infraestrutura pública pode arrastar-se por anos, com impacto direto na saúde, na qualidade de vida e até no valor patrimonial dos imóveis afetados. Casos de contaminação ambiental como este também podem gerar responsabilização civil e ambiental para a concessionária, além de abrir margem para ações coletivas por parte dos condomínios prejudicados.
O caso de Jundiapeba também acende um alerta para síndicos e administradoras de outras regiões: manter um histórico documentado de notificações, vistorias e respostas oficiais das concessionárias é fundamental para embasar eventuais cobranças administrativas ou judiciais. A Cetesb informou que o acompanhamento do caso continua, e a expectativa dos moradores é que, desta vez, as medidas anunciadas pela Sabesp sejam, de fato, suficientes para encerrar um problema que já dura mais de uma década. Até o fechamento desta edição, não havia prazo oficial divulgado para a normalização completa da estação elevatória responsável pelo escoamento de esgoto na região.
Fonte: G1 - Jornal Sete