Geral

Facção criminosa ameaça síndicos e assume controle da segurança de condomínios na Pavuna, RJ.

person Gabriele Fiel
calendar_today

Síndicos de condomínios na Pavuna, Zona Norte do Rio de Janeiro, foram pressionados por criminosos ligados à facção Terceiro Comando Puro (TCP) a romper contratos de segurança já firmados e contratar uma empresa de fachada controlada pelo grupo. O esquema motivou uma operação da Polícia Civil na manhã da sexta-feira, 14 de agosto de 2026, com o cumprimento de mandados de busca e apreensão em endereços na própria Pavuna e no bairro vizinho de Costa Barros.

De acordo com a apuração conduzida pela 39ª Delegacia Policial (Pavuna), com apoio do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC), pelo menos cinco síndicos da região foram assediados pelo grupo criminoso, que atua a partir da Comunidade da Quitanda e do Complexo da Pedreira. A estratégia identificada pelos investigadores ia além da simples cobrança de dinheiro: os suspeitos ameaçavam permitir a entrada de usuários de drogas nos condomínios e determinar a derrubada de muros que separam os conjuntos residenciais das áreas dominadas pela facção, criando um cenário de insegurança que forçava moradores a aceitar a proteção oferecida, e cobrada mensalmente, pelo próprio grupo criminoso.

A investigação mapeou diferentes papéis dentro da estrutura criminosa. Um dos alvos da operação seria responsável por intermediar as ordens da facção e repassá-las aos demais envolvidos no esquema. Outro suspeito, por sua vez, seria o único síndico que teria efetivamente aderido ao contrato imposto pelos criminosos, depois de fechar negócio com a empresa indicada, ele passou a receber vantagens e a atuar de forma informal a serviço da firma ligada ao TCP, segundo apontam os investigadores.

Publicidade

O esquema seria liderado por Luís Henrique Ferreira de Melo, conhecido como Angolano, que já está preso. Um dos mandados de busca e apreensão desta sexta-feira foi cumprido dentro da Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho, a Bangu 4, no Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste da capital fluminense, o que indica que o esquema seguiu sendo comandado de dentro do sistema prisional. Até o fechamento desta edição, não havia confirmação de prisões ou apreensões durante a operação.

O caso da Pavuna se soma a um padrão que vem se repetindo em diferentes regiões do Rio de Janeiro: a apropriação da gestão condominial por organizações criminosas, sejam facções de tráfico, sejam milícias. Em fevereiro de 2025, a Polícia Civil e a Polícia Militar cumpriram 47 mandados de busca e apreensão contra uma milícia que dominava um condomínio em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, cobrando taxas de moradores havia pelo menos cinco anos e expulsando famílias que resistiam ao esquema. Pesquisadores que estudam o fenômeno apontam que esse tipo de extorsão, antes concentrado em áreas de maior informalidade urbana, tem avançado sobre bairros já urbanizados e condomínios formais, um sinal de que o controle territorial de facções e milícias deixou de se restringir a comunidades e passou a mirar diretamente a estrutura de gestão condominial, historicamente vista como um espaço técnico e administrativo blindado desse tipo de disputa.

Para o mercado de administração de condomínios, o episódio reforça um risco que já preocupa síndicos profissionais e administradoras: a possibilidade de que ameaças à segurança física de moradores sejam usadas como instrumento de coação para a substituição de fornecedores, sobretudo empresas de portaria, vigilância e monitoramento. A adesão de um síndico ao esquema, apontada pela própria investigação, escancara também outro ponto sensível, o de que a cooptação, e não apenas a intimidação, pode estar entre as engrenagens desse tipo de operação criminosa.

Síndicos e administradoras que atuam em regiões sob influência de facções ou milícias devem redobrar a atenção a mudanças bruscas de fornecedores de segurança propostas sob pressão, à recusa em fornecer documentação fiscal e contratual completa por parte de empresas recém-indicadas, e a qualquer tentativa de vincular a segurança do condomínio ao pagamento de valores paralelos à taxa condominial oficial. Registrar boletim de ocorrência e buscar orientação jurídica junto a associações do setor seguem sendo os canais recomendados diante de situações de coação, mesmo quando o receio de represálias é real e imediato.

 

Fonte: Pleno.News - G1 Rio

Publicidade
Foto de Gabriele Fiel
Escrito por

Gabriele Fiel

Colunista do Portal SBM.

Ver Perfil arrow_forward

Comentários (0 comentários)

Deixe seu comentário

Artigos Relacionados