Facção criminosa manda síndico renunciar para controlar condomínio.
Três homens suspeitos de integrar a facção Comando Vermelho (CV) foram presos em flagrante no bairro Guajeru, na região da Grande Messejana, em Fortaleza (CE), depois de ameaçarem moradores e exigirem a renúncia do síndico de um condomínio residencial. As prisões ocorreram em 16 de julho, em ação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), da Polícia Civil do Ceará (PC-CE). O caso, divulgado nesta terça-feira (21), expõe uma tentativa direta da facção de assumir o controle da gestão condominial e dos serviços prestados no local.
De acordo com a investigação, o esquema começou em 2025, quando o grupo passou a pressionar o condomínio para que o síndico em exercício fosse substituído por alguém alinhado à facção. O objetivo não era apenas simbólico: com um representante próprio à frente da administração, o CV pretendia controlar a contratação de serviços essenciais, como o fornecimento de água e internet, exigindo que moradores contratassem somente prestadores vinculados à organização criminosa.
Segundo a Polícia Civil, os três presos integram o núcleo que ameaçou os condôminos e promoveu invasões ao condomínio, expulsando prestadores de serviço que atuavam sem autorização da facção. Francisco Jefferson Rocha Araújo é apontado como executor das ameaças e extorsões contra os moradores; ele já havia sido preso em março de 2025 e havia sido solto com tornozeleira eletrônica em fevereiro de 2026. Ronilson Pereira do Nascimento também é apontado como participante direto das ameaças e extorsões. Já Breno Matias da Silva é descrito como integrante do núcleo operacional do CV na região, responsável tanto pelas invasões e expulsões de prestadores quanto pelo tráfico de drogas na área do Guajeru.
Um levantamento do Diário do Nordeste mostra que, entre os presos, está um homem de 39 anos com antecedentes criminais por extorsão, tráfico de drogas e posse ilegal de arma de fogo, além de outro suspeito, de 27 anos, com antecedentes por tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo. Após a prisão em flagrante, os três passaram por audiência de custódia, quando a Justiça converteu a detenção em prisão preventiva, mantendo-os presos enquanto prossegue a apuração sobre a atuação da facção dentro do condomínio.
O episódio reacende um alerta que vem crescendo silenciosamente no mercado condominial brasileiro: a tentativa de organizações criminosas de transformar a gestão de condomínios em uma nova frente de arrecadação. Historicamente concentrada no Rio de Janeiro, onde milícias e facções já controlam a venda de gás, internet, TV a cabo e transporte alternativo dentro de comunidades, essa lógica de monopólio sobre serviços essenciais tem se espalhado para outras capitais do Nordeste, acompanhando a expansão territorial de grupos como o próprio Comando Vermelho para estados como o Ceará. Para o síndico, profissional ou morador, o caso reforça a importância de manter canais formais de comunicação com a polícia diante de qualquer pressão para trocar fornecedores ou renunciar ao cargo, além da necessidade de documentar ameaças e formalizar qualquer decisão de gestão em assembleia, com ata registrada, nunca por imposição externa.
A Polícia Civil do Ceará não descarta novas prisões, e o inquérito segue para apurar se outros condomínios da região também foram alvo de pressão semelhante por parte da facção. Para o setor condominial, o caso funciona como um lembrete de que a segurança do síndico e dos moradores deve ser tratada como parte da gestão de riscos do condomínio, ao lado das questões financeiras e estruturais, sobretudo em regiões onde a presença de facções criminosas já é reconhecida pelas próprias autoridades de segurança pública.
Fonte: BNews - Diário do Nordeste