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Guarita esfaqueada, síndico ameaçado: o alerta ignorado antes do atropelamento.

person Gabriele Fiel
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Uma disputa entre um ex-casal que já se arrastava havia dias dentro de um condomínio residencial no Barreiro, em Belo Horizonte, expôs nesta quarta-feira (9) os limites da segurança condominial diante de conflitos privados que invadem as áreas comuns: uma mulher de 24 anos esfaqueou por seis vezes o vidro da guarita onde estava um porteiro do prédio e, horas depois, foi atropelada duas vezes pelo ex-companheiro, de 25 anos, segundo o relato do síndico do edifício e boletins de ocorrência obtidos pela imprensa mineira.

Segundo o síndico, que preferiu não se identificar, a briga do casal já não era mais um problema restrito ao apartamento. "Fui ameaçado, não diretamente por ela, eu não escutei, mas ela ameaçou um outro porteiro e junto ela falou que também ia me pegar. Eu não fiz nada, nunca entrei no assunto da briga deles", afirmou. Ele contou que a polícia precisou ser acionada quatro vezes no edifício nos últimos dias, sinal de como o conflito doméstico vinha virando um problema de segurança coletiva.

O estopim mais recente, segundo o síndico, foi a descoberta de que o ex-namorado havia retirado o carro da garagem. Sem conseguir informações do porteiro sobre o paradeiro do veículo, a mulher se revoltou e atacou o vidro da guarita a golpes de faca. De acordo com o boletim de ocorrência, ela relatou à polícia que o casal teria combinado, após o término, que o carro ficaria com ela e o apartamento alugado permaneceria com o ex-companheiro. A mãe do rapaz contesta essa versão e afirma que o veículo está no nome do filho e que a mulher sequer possui carteira de habilitação.

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Depois do episódio na guarita, a mulher foi até a casa dos pais do ex-namorado tentar recuperar o carro. Foi nesse momento, segundo relato dela à Polícia Militar, que ele a atropelou pela primeira vez. Ela afirma ter fugido em uma motocicleta, mas foi atingida por ele uma segunda vez na Avenida Manoel Salles Barbosa, dias depois de já ter solicitado medida protetiva de urgência contra o ex-companheiro. Imagens do momento mostram o carro fechando a motocicleta, a queda da vítima e uma segunda manobra do veículo em direção a ela antes da fuga do condutor. A mulher foi socorrida com suspeita de fratura em uma perna, atendida na UPA Barreiro e depois transferida ao Hospital João XXIII, onde precisou passar por cirurgia.

A mãe do suspeito apresenta versão oposta e sustenta que o filho agiu em legítima defesa. Segundo ela, a jovem já havia ameaçado o rapaz com faca, quebrado objetos pessoais dele, incluindo um videogame, e colocado fogo em uma camisa dentro do apartamento onde os dois moravam. "Ele ficou assustado, já ligou o carro, já saiu correndo e ela começou a persegui-lo. Ele sabe que ela é extremamente violenta e agressiva", relatou. A reportagem teve acesso a um vídeo em que a mulher, numa ligação, ameaça atear fogo ao apartamento, e a boletins registrados pelo rapaz contra a ex-namorada por comportamento agressivo em episódios anteriores.

O caso, ainda em apuração, ilustra um risco que preocupa síndicos e administradoras em todo o país: a dificuldade de conter, dentro dos limites do condomínio, conflitos que nascem em relacionamentos pessoais mas colocam em risco funcionários e a rotina de segurança do prédio. A legislação civil já reconhece que o condomínio pode ser responsabilizado por omissão quando a administração é alertada sobre ameaças reiteradas e não adota providências, como acionar a polícia, registrar boletim de ocorrência em nome do condomínio e convocar assembleia para deliberar sanções ao morador responsável, que podem incluir multa de até dez vezes o valor da cota condominial por conduta antissocial reincidente.

O episódio também acontece pouco depois de o Supremo Tribunal Federal ampliar, em agosto, o alcance da Lei Maria da Penha, decidindo por unanimidade que medidas protetivas de urgência podem ser aplicadas mesmo sem vínculo familiar, doméstico ou afetivo entre vítima e agressor. Na prática, a tese abre espaço para que síndicas, moradoras e funcionárias de condomínios também recorram à lei em situações de intimidação e violência de gênero ligadas à convivência no prédio, ainda que a própria decisão ressalve que nem todo conflito administrativo configura violência de gênero.

Para especialistas em gestão condominial, episódios como o do Barreiro reforçam a importância de protocolos internos claros: orientar porteiros sobre como agir diante de moradores em crise, documentar formalmente ameaças relatadas à administração e manter comunicação direta com a polícia sempre que a segurança do prédio for colocada em risco. A ausência desses registros é justamente o que pode expor o condomínio a responsabilização judicial em um novo episódio de violência dentro do edifício.

O caso segue sob investigação da Polícia Civil de Minas Gerais, que deve apurar tanto a ameaça na guarita quanto os dois atropelamentos relatados pela vítima. Até o fechamento desta edição, não havia informação sobre eventual prisão do suspeito.

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Fonte: Rádio Itatiaia

Foto de Gabriele Fiel
Escrito por

Gabriele Fiel

Colunista do Portal SBM.

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