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Chuva artificial em prédios: a tecnologia chinesa contra o calor extremo.

person Gabriele Fiel
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Um condomínio residencial da cidade de Yuncheng, na província chinesa de Shanxi, virou o centro de uma repercussão internacional depois de instalar um sistema de nebulização de alta pressão nos telhados de seus edifícios para enfrentar as ondas de calor extremo que atingem o país. As imagens, divulgadas em 1º de julho pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, mostram cortinas de névoa descendo pelas fachadas do complexo residencial Shichang Guobinfu, criando o que a imprensa internacional já apelidou de "chuva artificial". Segundo Mao Ning, o sistema reduz a temperatura das superfícies dos edifícios entre 5°C e 8°C em poucos minutos, efeito comparável, segundo especialistas, ao mecanismo natural de transpiração do corpo humano.

O princípio por trás da tecnologia não é novo: trata-se do resfriamento evaporativo, processo físico em que a água, ao evaporar, retira energia térmica do ar e das superfícies ao redor. Bicos de alta pressão instalados nos telhados liberam milhões de gotículas microscópicas que evaporam antes mesmo de atingir o solo, o que evita que ruas e calçadas fiquem encharcadas. O método já é usado há décadas em estufas agrícolas, parques e esplanadas, mas ganhou destaque agora pela escala inédita com que foi aplicado: telhados de torres altas cobrindo quarteirões residenciais inteiros, e não apenas pontos isolados de conforto térmico.

A técnica tem raízes muito mais antigas do que se imagina. Há mais de mil anos, durante a dinastia Tang, o Salão Hanliang, no Palácio Daming, já usava um sistema hidráulico que levava água ao telhado e a fazia cair pelas bordas do edifício, formando uma cortina d'água refrescante. Nos Estados Unidos, patentes de nebulização para resfriamento existem desde os anos 1970, e cidades secas como Phoenix e Tempe, no Arizona, adotam a tecnologia há anos em espaços públicos. Na Europa, Madri também instalou nebulizadores em praças e ruas para amenizar o calor no verão.

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Segundo o China Daily, o sistema do complexo Shichang Guobinfu está entre os primeiros a levar essa lógica para dentro de um condomínio residencial em grande escala, cobrindo fachadas, pátios e jardins internos. Os resultados mais expressivos aparecem na temperatura das superfícies expostas ao sol e na sensação térmica percebida por moradores, mais do que na temperatura do ar propriamente dita. Projetos semelhantes indicam que a estratégia pode reduzir a dependência de ar-condicionado em ambientes externos, embora o percentual varie conforme o clima local.

A tecnologia, porém, esbarra em limitações que qualquer gestor condominial brasileiro precisaria considerar. O consumo de água é o principal entrave: cada ativação pode demandar dezenas de toneladas de água, além da energia para operar os equipamentos de alta pressão. Somam-se custos de manutenção, tratamento da água e substituição periódica dos bicos, despesas a equacionar em orçamento e convenção.

Há ainda uma restrição climática decisiva: o resfriamento evaporativo funciona melhor em ambientes secos. Em regiões úmidas, como grande parte do litoral e das metrópoles brasileiras, a evaporação se torna menos eficiente e pode até aumentar a sensação de abafamento. Ou seja, a tecnologia dificilmente seria transplantada de forma direta para cidades úmidas, exigindo estudos climáticos locais antes de qualquer implantação.

O caso chinês também reacende a discussão sobre as ilhas de calor urbano, fenômeno em que o concreto, o asfalto e a concentração de edifícios fazem os centros das cidades acumularem calor durante o dia e liberá-lo lentamente à noite, mantendo temperaturas superiores às de áreas rurais próximas. Para síndicos e administradoras brasileiras, o fenômeno já é conhecido em coberturas, garagens e fachadas voltadas para o sol da tarde, especialmente em edifícios sem isolamento térmico adequado, problema que tende a se intensificar com o aumento das ondas de calor no Brasil.

Diante desse cenário, soluções como telhados verdes, fachadas vegetais, materiais reflexivos e mais arborização nas áreas comuns têm ganhado espaço nas discussões sobre adaptação climática predial no país, por serem alternativas de custo e manutenção mais compatíveis com a maioria dos condomínios. A nebulização evaporativa, por ora, permanece uma opção pontual para eventos, piscinas e espaços de convivência ao ar livre, e não um substituto do ar-condicionado nas unidades internas.

Para o setor de gestão condominial, o episódio chinês funciona como alerta e oportunidade. À medida que ondas de calor se tornam mais frequentes também no Brasil, condomínios que investirem em conforto térmico das áreas comuns tendem a ganhar valorização junto a moradores e compradores. Síndicos profissionais já apontam o tema como pauta recorrente em assembleias que discutem reformas de fachada, cobertura ou áreas de lazer, e recomendam avaliar clima local, consumo hídrico e impacto no orçamento antes de qualquer decisão.

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Fonte: Rádio Itatiaia - Xataka Brasil - Gizmodo Brasil - ZAP Notícias (Portugal) - O Tempo - Diário do Litoral

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Escrito por

Gabriele Fiel

Colunista do Portal SBM.

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