Incorporadora paulistana troca piscina por estúdio em prédio para influencers.
São Paulo se prepara para receber um novo tipo de prédio residencial. Em julho começam as obras do Influencer Vila Mariana, primeiro de quatro empreendimentos da Azure Incorporadora voltados exclusivamente para criadores de conteúdo digital. A novidade, anunciada pela companhia paulistana no início de junho de 2026, substitui áreas comuns tradicionais, como piscina, salão de jogos e até salas de edição, por estúdios profissionais de gravação, fotografia, podcast e maquiagem, marcando o que o setor já considera o primeiro produto imobiliário desenhado a partir da economia dos criadores.
Localizado na zona sul da capital paulista, o Influencer Vila Mariana terá 208 unidades, entre 20 e 48 metros quadrados, com preços que partem de R$ 325 mil. A taxa condominial estimada gira em torno de R$ 13 por metro quadrado, sem incluir o uso dos espaços de criação de conteúdo. Segundo Daniel Debeuz, sócio-fundador da Azure, 124 apartamentos já foram vendidos, o equivalente a quase 60% do projeto, e a entrega está prevista para 2028. O modelo será replicado em outros três empreendimentos: o BConnect Perdizes, próximo à futura estação Sesc Pompeia do metrô, e o Status Paulista, nos Jardins, e o Trend F, na Rua Silvia, ambos em fase de aprovação. Nenhum dos prédios contará com vagas de garagem, decisão que, segundo o executivo, ajuda a manter os valores competitivos em regiões valorizadas da capital.
Os dados que sustentam a aposta vêm do relatório The Creator Revolution: em 2025, eram 362 milhões de criadores de conteúdo nos 20 países analisados, com receita anual estimada em US$ 368 bilhões, cifra comparável ao PIB de Hong Kong ou da África do Sul. No Brasil, são 40,1 milhões de criadores, aproximadamente um em cada cinco brasileiros. Para Debeuz, o público-alvo não são as grandes celebridades digitais, mas microinfluenciadores, médicos, advogados, psicólogos, consultores e demais profissionais autônomos que dependem das redes sociais para construir autoridade e captar clientes.
O lançamento sintetiza uma tensão crescente nos condomínios residenciais brasileiros: o uso indevido de áreas comuns como cenário improvisado de gravações. Academias, piscinas, coworkings e até elevadores se tornaram pano de fundo de produções amadoras, gerando conflitos entre moradores e dores de cabeça para síndicos e administradoras. A solução da Azure foi concentrar essa atividade em ambientes preparados, com tratamento acústico, iluminação controlada e fundo infinito, recurso utilizado em fotografia comercial, para isolar a produção da rotina das demais áreas.
Para os síndicos, o modelo levanta questões inéditas de gestão. Como regulamentar o uso compartilhado de estúdios profissionais, definir agendamentos, calcular custos de manutenção de equipamentos que se tornam obsoletos com rapidez e até prever responsabilidade civil por conteúdo gravado dentro do condomínio são desafios que tendem a ocupar as próximas assembleias. Debeuz reconhece que a tecnologia evolui mais rápido do que a obra: a sala de edição prevista nas primeiras versões do projeto foi eliminada depois que a incorporadora concluiu que praticamente toda edição de vídeo migrou para o celular.
O movimento da Azure pode ser apenas o começo. Em um mercado em que a busca por nichos se tornou estratégia central para incorporadoras pressionadas pela alta dos terrenos e pela concorrência por compradores, a aposta nos criadores de conteúdo dialoga com uma mudança cultural mais profunda, a profissionalização da economia digital e o esvaziamento simbólico de áreas comuns historicamente associadas ao lazer familiar. Para síndicos, moradores e administradoras, o recado é direto: o perfil do empreendimento residencial está mudando, e a próxima convenção condominial talvez precise decidir o que fazer quando o salão de festas der lugar a um estúdio de podcast.
Fonte: Exame — Mercado Imobiliário