Na Bahia, condomínio para a terceira idade já vende 80% antes da entrega.
Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, ganhou o primeiro empreendimento residencial do estado projetado exclusivamente para moradores acima de 60 anos. O Residencial Horto Sênior, atualmente em construção, reúne 58 casas de dois e três quartos com banheiros adaptados, portas largas, sensores de alarme, detecção de gás e assistentes virtuais integrados a cada ambiente. A entrega está prevista para junho de 2027 e o projeto já tem 80% das unidades comercializadas, segundo dados publicados pelo jornal A TARDE.
O diferencial do empreendimento está na combinação entre autonomia e segurança. Cada casa conta com botão de pânico: caso o morador sofra uma queda, um alarme é acionado simultaneamente na portaria e na enfermaria do condomínio, que funcionará 24 horas por dia. A área comum inclui piscina coberta aquecida, espaço para pilates e terapias ocupacionais, academia ao ar livre, minimercado, horta, orquidário e salão de convivência. Estão previstas ainda parcerias com convênios de saúde, empresas de cuidadores e suporte profissional para gerenciamento de medicações.
O empreendimento nasceu de uma motivação pessoal de Maurício Muiños, sócio da Engenhar Construtora, responsável pelo projeto. Ao lidar com a situação da própria mãe, que se tornou independente mas já não podia morar sozinha, ele identificou uma lacuna no mercado: a falta de empreendimentos que oferecessem autonomia com segurança a esse público. Segundo o construtor, condomínios tradicionais costumam falhar nesse equilíbrio, com playgrounds que representam risco de acidente para idosos, prédios sem acessibilidade completa e taxas que cobrem equipamentos que esse morador não chega a usar.
A resistência inicial do mercado, que chegou a apelidar o projeto de "condomínio dos velhos", deu lugar a um resultado comercial expressivo. Parte significativa dos compradores são investidores que adquiriram as unidades para locação, sinal de que o segmento desperta interesse também como oportunidade de negócio, não apenas como moradia.
O movimento não é isolado. A corretora de imóveis Sheila Rangel, economista com doutorado em engenharia de produção pela Universidade Federal de Santa Catarina, chegou ao nicho sênior por um caminho diferente: a acessibilidade. Desde 2018 ela atua voluntariamente com inclusão, ministrando oficinas de mediação para pessoas cegas. Em 2022, após assistir a um relato sobre a dificuldade de encontrar imóveis acessíveis em uma transmissão do Creci de São Paulo, decidiu se especializar no segmento. A surpresa veio das redes sociais: ao falar sobre acessibilidade, percebeu que a maior parte do público que interagia com seu conteúdo era, na verdade, formada por idosos.
A partir dessa constatação, Sheila ampliou o foco para o mercado de moradia sênior na Bahia. Além do Horto Sênior, ela já identificou um segundo empreendimento do tipo, aguardando licenças ambientais para ser lançado em Itacimirim, no litoral norte do estado, com previsão de lançamento em novembro. A corretora também mantém contato com empreiteiras para viabilizar projetos similares em Salvador.
Na avaliação de Sheila, as construtoras baianas ainda não despertaram para o potencial desse público, concentrando os lançamentos em apartamentos compactos voltados a jovens ou em unidades muito grandes, de três quartos ou mais, que não atendem à demanda real de quem busca espaços menores, porém acessíveis e bem planejados. Uma pesquisa informal conduzida pela corretora em suas redes sociais indicou que esse público prioriza, além da acessibilidade, ambientes com plantas, centro ecumênico, piscina aquecida para hidroginástica e salão de dança. Mais do que infraestrutura, o que esse morador busca é um senso de pertencimento comunitário, com espaços que favoreçam o convívio social.
O contexto demográfico reforça a urgência do tema. Segundo o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro saltou de 57 anos em 1970 para 77 anos atualmente. O Banco Mundial projeta que, enquanto a França levou quase um século para dobrar sua população idosa de 7% para 14%, o Brasil percorrerá o mesmo caminho em apenas duas décadas.
Para o setor condominial, o movimento observado na Bahia antecipa uma transformação que tende a se espalhar por outras regiões do país. Síndicos, administradoras e incorporadoras que se anteciparem às necessidades específicas do público 60+, seja em empreendimentos novos, seja em adaptações de condomínios já existentes, encontram um nicho com demanda crescente e baixa concorrência. O caso do Horto Sênior mostra que segurança, acessibilidade e vida comunitária ativa não são exigências isoladas, mas o novo padrão de expectativa para quem envelhece sem abrir mão de autonomia.
Fonte: A TARDE