Na Nova Escócia, bunker da Guerra Fria vira condomínio para bilionários.
Em Debert, na província canadense da Nova Escócia, um búnquer construído em 1959 para proteger autoridades do governo em caso de guerra nuclear está sendo transformado em um empreendimento residencial de altíssimo padrão. O projeto, batizado de The Diefenbaker, prevê 50 unidades subterrâneas de luxo destinadas a compradores dispostos a pagar por segurança máxima diante de crises globais, de conflitos armados a colapsos climáticos. A obra começou há pouco menos de um ano e já recebeu investimentos da ordem de 8 milhões de dólares canadenses, segundo Paul Mansfield, um dos sócios do empreendimento.
A estrutura, com 64 mil pés quadrados (cerca de 5.950 m²) distribuídos em dois pavimentos subterrâneos, é um dos chamados "Diefenbunkers", batizados em homenagem ao então primeiro-ministro John Diefenbaker, que em 1959 ordenou a construção de seis abrigos idênticos pelo país durante o auge da Guerra Fria. Erguido na antiga base militar de Camp Debert, a uma hora de carro de Halifax, o búnquer tinha paredes de um metro de espessura, projetadas para resistir a uma explosão nuclear de cinco megatons a dois quilômetros de distância, além de sistemas de filtragem contra contaminação química, biológica e radioativa e estoques para sustentar 350 líderes governamentais e militares por 90 dias.
Desativado nos anos 1990, o imóvel passou por diferentes usos ao longo das últimas décadas: funcionou como atração turística, depois como centro de armazenamento seguro de dados e, a partir de 2013, sediou eventos como laser tag, competições de e-sports e uma sala de fuga temática sobre a Guerra Fria. O atual proprietário, o empresário do setor de blockchain Jonathan Baha'i, adquiriu o imóvel por cerca de 22 mil dólares canadenses. As atividades de entretenimento foram interrompidas pela pandemia, e a estrutura ficou majoritariamente ociosa entre 2022 e o início da atual reforma.
A nova fase do empreendimento aposta na percepção de instabilidade global para atrair compradores dispostos a pagar por refúgio. "O mercado de búnqueres está em expansão em todo o mundo", afirmou Mansfield em entrevista recente, citando mudanças climáticas e o aumento de conflitos armados como parte da motivação dos interessados. Segundo ele, o projeto já despertou atenção de compradores de alto poder aquisitivo, embora a faixa de preços das unidades seja mantida em sigilo e revelada apenas a candidatos aprovados em um processo de triagem financeira.
O plano prevê a entrega de cerca de 15 suítes até o fim deste ano, com o restante das unidades programado para 2027. Quando não estiverem ocupadas por seus proprietários, os espaços deverão funcionar como um hotel boutique. A promessa comercial é replicar, para uma clientela bilionária, a função original do búnquer: garantir autonomia total de energia, água e alimentos por seis a nove meses após o fechamento das portas blindadas. Entre as comodidades anunciadas estão spa, academia, cafeteria, espaço para charutos e um quadro de cerca de 40 funcionários, além de vigilância perimetral com radar térmico e parceria com uma empresa alemã especializada em proteção de residências e embarcações de luxo, que já teria prestado serviços a autoridades e celebridades internacionais, segundo os responsáveis pelo projeto.
O fenômeno não é exclusivo do Canadá. Nos Estados Unidos, o empresário Larry Hall converteu, a partir de 2010, um antigo silo de mísseis Atlas no Kansas no chamado Survival Condo. Na Europa, projetos como o Vivos Europa One, na Alemanha, e o Oppidum, na República Tcheca, seguem lógica semelhante. A Architectural Digest já classificou os "búnqueres de luxo" como tendência consolidada do mercado imobiliário de alto padrão.
Para o setor condominial, o caso ilustra um movimento que ganha corpo fora do nicho de sobrevivencialismo: a transformação de estruturas subterrâneas ou de uso militar em empreendimentos residenciais coletivos regidos por lógica de condomínio fechado, com administração compartilhada, taxas de manutenção e regras de convivência para um público de altíssima renda. Surge, nesses casos, uma camada extra de complexidade para administradoras e síndicos: conciliar a gestão condominial tradicional com exigências de segurança, sigilo e infraestrutura de sobrevivência sem paralelo em edificações convencionais.
Especialistas ouvidos pela imprensa internacional associam o interesse crescente por esse tipo de imóvel a um sentimento de insegurança entre parte da elite econômica global, ligado a temores que vão de guerras e pandemias ao avanço acelerado da inteligência artificial. Para o economista Lars Osberg, da Universidade Dalhousie, em Halifax, o fenômeno também tem componente social: super-ricos tendem a buscar convívio entre pares, o que explicaria o apelo de comunidades fechadas mesmo em cenários apocalípticos. Até o fechamento desta edição, os empreendedores não haviam divulgado o valor exato das unidades nem a lista de compradores interessados.
Fonte: R7