Nova tecnologia resfria prédios sem energia e pode aliviar conta do condomínio.
Uma revisão científica publicada em julho de 2026 na Nature Reviews Clean Technology, assinada pelos pesquisadores Matthaios Santamouris e Konstantina Vasilakopoulou e destacada pela revista Nature, reacende um debate que interessa diretamente a síndicos e moradores de condomínios em todo o Brasil: o ar-condicionado, sozinho, não vai dar conta de proteger os edifícios do calor extremo, e a conta de luz das áreas comuns tende a subir junto com a temperatura. Segundo os autores, o caminho mais eficiente passa por materiais de resfriamento passivo aplicados em fachadas, telhados e esquadrias, reduzindo a temperatura interna sem consumir eletricidade adicional.
O resfriamento de edifícios já responde por quase 10% de todo o consumo elétrico mundial, e essa fatia deve crescer de forma acelerada nas próximas décadas por causa do aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas. A projeção é de que, até 2050, a eletricidade destinada a resfriar prédios pode aumentar 210% em relação a 2024, enquanto as emissões associadas ao uso desses aparelhos podem triplicar no mesmo período. Para um condomínio médio, isso significa pressão crescente sobre o rateio de despesas com energia das áreas comuns, sobretudo em prédios com ar-condicionado em salões de festas, academias e portarias.
Há ainda um efeito colateral: os aparelhos convencionais retiram calor de dentro dos apartamentos e o despejam nas ruas, elevando a temperatura das cidades e realimentando a dependência de climatização, sentido no aumento da conta de luz das áreas comuns e no desconforto de unidades com pouca ventilação, motivo recorrente de reclamação em assembleia.
O estudo chama atenção também para uma barreira econômica que toca de perto a realidade brasileira: até 100 milhões de famílias na Índia, no México, na Indonésia e no Brasil não terão condições de comprar um ar-condicionado até 2040, mesmo com acesso à rede elétrica. Depender só da climatização mecânica tende a aprofundar desigualdades dentro do próprio condomínio, entre quem pode arcar com o custo e quem não pode.
É nesse cenário que as tecnologias de resfriamento passivo ganham espaço como alternativa para síndicos que buscam reduzir custos sem reformas elétricas. Entre as soluções estão persianas automatizadas que acompanham o sol, além de materiais de resfriamento radiativo, tintas especiais, vidros, géis e revestimentos para telhados e fachadas, que refletem o calor diretamente para o espaço, num fenômeno conhecido como janela atmosférica.
Os resultados são expressivos. Um dos revestimentos testados reduziu em 5,26°C a temperatura da superfície onde foi aplicado, refletindo 97% da radiação solar incidente. Outra tecnologia, que combina resfriamento radiativo com evaporação por meio de um filme com hidrogel, absorve vapor de água à noite e libera calor durante o dia, reduzindo cerca de 7°C a temperatura sob luz solar direta. Aplicados em telhados e fachadas, esses materiais podem entrar em reformas já previstas no plano de manutenção predial, sem exigir troca de infraestrutura elétrica.
Para o mercado condominial brasileiro, essas soluções dialogam com um movimento regulatório já em curso. O Procel Edifica, do Inmetro em parceria com a Eletrobras, mantém desde 2003 a Etiqueta Nacional de Conservação de Energia, que classifica prédios de A a E por desempenho energético. Já obrigatória para construções públicas federais, a etiquetagem deve se tornar compulsória em edificações residenciais até 2030, o que deve levar condomínios já construídos a considerar retrofits de fachada como parte da valorização do imóvel.
Na prática, o investimento em revestimentos reflexivos tende a ser mais barato e menos disruptivo do que uma reforma elétrica, o que facilita sua aprovação em assembleia e inclusão no orçamento anual ou no fundo de reserva. Síndicos que já planejam pintura de fachada ou impermeabilização de telhado podem avaliar, com engenheiros e arquitetos, materiais de alta refletância solar, aproveitando uma obra já orçada para ganho energético de longo prazo.
Os autores reforçam que esses materiais não substituem o ar-condicionado por completo, mas podem reduzir bastante a necessidade do equipamento, e defendem que políticas públicas incentivem as tecnologias em novos empreendimentos, somadas à arborização urbana contra o efeito de ilha de calor, um ganho que se soma à economia obtida por cada condomínio isoladamente.
Para síndicos, o recado prático é que reforma de fachada ou revestimento de telhado deixou de ser só questão estética: é também estratégia de redução de despesas com energia nas áreas comuns e de valorização do imóvel diante de compradores atentos ao desempenho térmico, argumento que pode pesar na próxima pauta de assembleia.
Fonte: Exame