O 'agente' que ninguém contratou: macaco faz rapel em obra e revela brecha de segurança em condomínio do Rio.
Um macaco foi flagrado descendo de rapel por uma corda deixada em uma obra de reforma em um condomínio da Rua Visconde de Asseca, no bairro da Taquara, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, na tarde de domingo (6). O animal se apoiou no mesmo equipamento usado pelos pedreiros do canteiro, desceu com desenvoltura de um dos andares superiores até o nível da rua e deixou o local em seguida, sem causar danos aparentes. O flagrante foi registrado por um morador que passava pelo local e circulou rapidamente nas redes sociais, sendo exibido nesta semana pelo telejornal Bom Dia Rio, da TV Globo, sob o título "Missão Impossível", em referência à cena clássica de rapel do filme estrelado por Tom Cruise.
O episódio, embora tenha um tom leve e tenha rendido comparações bem-humoradas nas redes, chama atenção para um problema recorrente na gestão de obras em condomínios: o acesso facilitado a equipamentos de trabalho em altura fora do horário de expediente da construção. Cordas, cadeirinhas, talabartes e demais itens de rapel industrial costumam ficar instalados ou armazenados nos andaimes e nas fachadas durante todo o período da reforma, o que reduz o tempo de montagem para as equipes, mas também amplia a janela de exposição a usos não previstos, sejam eles protagonizados por animais, como no caso da Taquara, sejam por pessoas não autorizadas.
Especialistas em segurança predial costumam recomendar que síndicos e administradoras condicionem a contratação de empresas de obra e manutenção em altura à apresentação de um plano de segurança que preveja o recolhimento diário de cordas e equipamentos ao final do expediente, ou, quando isso não for operacionalmente viável, a lacração dos pontos de ancoragem e o isolamento físico da área com barreiras que impeçam o acesso de terceiros. A Norma Regulamentadora nº 18, que trata das condições de segurança no trabalho na indústria da construção, e a NR 35, específica para trabalho em altura, estabelecem obrigações para os empregadores quanto ao uso e à guarda de equipamentos de proteção individual e de sistemas de ancoragem, ainda que a fiscalização sobre o cumprimento dessas normas dentro de condomínios residenciais em obra costume ser um ponto de atenção para síndicos profissionais.
Do ponto de vista da gestão condominial, o caso ilustra um risco que vai além do bem-estar animal. Cordas e estruturas de rapel deixadas acessíveis em fachadas de prédios em reforma já foram, em outras ocasiões registradas pela imprensa em diferentes cidades brasileiras, associadas a tentativas de furto e invasão, já que oferecem uma rota alternativa de acesso às unidades que escapa da portaria e dos sistemas convencionais de controle de entrada. Para o síndico, a recomendação prática é simples: toda obra terceirizada deveria ser formalizada em contrato com cláusulas específicas sobre guarda de equipamentos, e a administração deveria realizar vistorias periódicas, inclusive fora do horário comercial, para verificar se andaimes, cordas e escadas externas estão devidamente recolhidos ou bloqueados.
O mercado condominial brasileiro tem registrado, nos últimos anos, um volume crescente de obras de retrofit e manutenção predial, movido tanto pela necessidade de adequação a normas de segurança contra incêndio quanto pela valorização patrimonial de edifícios mais antigos. Esse movimento aumenta proporcionalmente a exposição das edificações a períodos prolongados com andaimes, redes de proteção e equipamentos de acesso por corda instalados nas fachadas, tornando ainda mais relevante que convenções e regimentos internos prevejam regras claras sobre o assunto antes do início de qualquer intervenção.
Não há, até o fechamento desta edição, identificação do condomínio ou confirmação por parte da administradora responsável pela obra sobre as circunstâncias exatas em que o animal teve acesso à corda, tampouco informações sobre o destino do macaco após deixar o local. Também não foi possível apurar, junto às fontes disponíveis, se o Centro de Controle de Zoonoses ou algum órgão ambiental foi acionado. Casos de animais silvestres em áreas urbanas do Rio de Janeiro, sobretudo na Zona Oeste, onde há proximidade com maciços florestais como o da Pedra Branca, não são incomuns e costumam ser tratados pelos órgãos ambientais municipais quando há risco à integridade do animal ou da população.
Para síndicos e moradores, o episódio funciona como um lembrete de que a segurança de uma obra não termina no canteiro: ela se estende a cada equipamento que permanece pendurado na fachada depois que os trabalhadores vão embora.
Fonte: G1