O condomínio na Serra Catarinense onde cada morador terá seu próprio rótulo de vinho.
Bom Retiro (SC), 27 de maio de 2026 — Em meio às montanhas da Serra Catarinense, um novo empreendimento imobiliário de alto padrão decidiu transformar o conceito tradicional de condomínio de luxo no Brasil. Instalado dentro da Fazenda Bom Retiro, às margens da BR-282, o projeto une moradia, turismo de experiência e produção vitivinícola em uma fórmula voltada ao público de alta renda. O diferencial chamou atenção do mercado: os moradores terão direito a criar o próprio rótulo de vinho utilizando a estrutura da Vinícola Thera, já consolidada na região.
Com pouco mais de 8,4 mil habitantes, o município de Bom Retiro vem se posicionando como um dos polos emergentes do enoturismo brasileiro. A Fazenda Bom Retiro ocupa uma área de aproximadamente 8 milhões de metros quadrados, localizada a cerca de 900 metros de altitude. O complexo já abriga hotel boutique, wine bar e operações ligadas ao turismo rural e gastronômico. Agora, entra de vez no segmento imobiliário de luxo com residências avaliadas entre R$ 5,5 milhões e R$ 12 milhões, segundo informações divulgadas pela incorporadora.
A proposta do residencial vai além da oferta tradicional de infraestrutura premium, como piscina aquecida, academia e espaços gourmet. Cada proprietário receberá uma barrica com capacidade para aproximadamente 300 garrafas de vinho, produzidas em parceria com a equipe de enologia da vinícola. O modelo busca eliminar a complexidade da manutenção agrícola normalmente associada aos chamados “wine condos”, comuns em regiões vinícolas da Argentina e dos Estados Unidos.
Segundo Abner Zeus de Freitas, sócio e CEO do Grupo Fazenda Bom Retiro, a estratégia foi desenhada para oferecer ao comprador apenas a parte aspiracional da experiência. Em vez de administrar vinhedos próprios, os moradores participam da criação do rótulo utilizando uma operação já estruturada. A ideia reflete uma mudança importante no mercado imobiliário de luxo: o imóvel deixa de ser apenas patrimônio e passa a funcionar como plataforma de experiências personalizadas.
O movimento acompanha uma tendência observada em diferentes regiões do país. Incorporadoras e fundos imobiliários vêm apostando em empreendimentos temáticos capazes de criar identidade própria e elevar o valor percebido do ativo. Nos últimos anos, o setor viu crescer projetos ligados à hospitalidade, wellness, gastronomia, design assinado e integração com a natureza. Em paralelo, cidades menores passaram a disputar consumidores de alta renda que buscam segunda residência, qualidade de vida e menor densidade urbana.
A Serra Catarinense se tornou especialmente atrativa nesse contexto. O avanço do turismo de inverno, da produção nacional de vinhos de altitude e da valorização imobiliária em municípios serranos criou um ambiente favorável para projetos exclusivos. Diferentemente do litoral catarinense, marcado por verticalização intensa e alta densidade construtiva, a região serrana aposta em baixa ocupação, preservação ambiental e integração paisagística como ativos de valorização.
O modelo também revela uma transformação importante no comportamento do comprador de luxo no Brasil. Se antes localização e metragem eram os principais diferenciais competitivos, hoje experiências personalizadas ganham espaço na decisão de compra. Condomínios que oferecem gastronomia autoral, produção artesanal, hotelaria integrada e serviços exclusivos tendem a criar vínculos emocionais mais fortes com os moradores — e maior potencial de valorização patrimonial no longo prazo.
Para o setor condominial, a expansão desse tipo de empreendimento traz novos desafios operacionais. A gestão de condomínios de experiência exige administração mais complexa, envolvendo hotelaria, manutenção especializada, eventos, operação gastronômica e serviços premium contínuos. Isso aumenta a necessidade de síndicos profissionais capacitados e administradoras com expertise em empreendimentos híbridos, onde moradia e hospitalidade se misturam.
O mercado também observa com atenção o impacto econômico desses projetos em cidades pequenas. Empreendimentos de alto padrão costumam elevar arrecadação municipal, estimular turismo e gerar empregos diretos e indiretos. Por outro lado, especialistas apontam que a expansão acelerada do segmento de luxo pode pressionar preços locais, alterar dinâmicas urbanas e ampliar desigualdades regionais caso não exista planejamento urbano adequado.
Segundo informações disponíveis até o fechamento desta edição, o residencial da Fazenda Bom Retiro tem previsão de entrega em até 36 meses. O projeto reforça uma tendência cada vez mais evidente no mercado imobiliário brasileiro: a venda de estilo de vida como principal ativo de valorização. Em um setor onde exclusividade virou palavra-chave, produzir o próprio vinho pode ser apenas o começo de uma nova geração de condomínios temáticos no país.
Fonte: Exame