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O exemplo que vem das crianças: condomínio transforma reciclagem em hábito.

person Gabriele Fiel
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Em um condomínio de Curitiba, capital do Paraná reconhecida nacionalmente como referência em sustentabilidade urbana, foram as crianças que assumiram um papel improvável: o de fiscais e educadoras do descarte correto de lixo. Segundo reportagem exibida pelo programa Meio-Dia Paraná, da TV local, os pequenos moradores passaram a influenciar diretamente o comportamento dos adultos, cobrando a separação de recicláveis e orgânicos e transformando a coleta seletiva em uma rotina coletiva do prédio. O caso, embora pontual, ilustra uma tendência crescente na gestão condominial brasileira, a de que a mudança cultural na destinação de resíduos depende menos de regras impostas e mais de engajamento e conscientização.

A iniciativa curitibana não surge no vácuo. Curitiba começou a implementar a separação de resíduos no início da década de 1990 e hoje é referência em reciclagem no país. A cidade recicla 22,5% do que é descartado, percentual bem acima da média nacional de cerca de 2%, segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Todos os meses são coletadas cerca de 50 mil toneladas de resíduos em todos os serviços de limpeza urbana, sendo aproximadamente 41.500 toneladas na coleta domiciliar, com operação que atende 100% dos domicílios da cidade. A capital paranaense ainda mantém programas emblemáticos como o Câmbio Verde, que troca material reciclável por frutas e hortaliças, e o Ecocidadão, que remunera associações de catadores responsáveis pela triagem dos recicláveis.

Esse aprendizado ambiental nasce, em grande parte, nas escolas. Nos programas municipais de educação ambiental, os estudantes aprendem desde cedo a separar materiais recicláveis e a destinar corretamente o lixo eletrônico, atuando como multiplicadores das orientações junto às famílias e às comunidades. O que se observa no condomínio é justamente o transbordamento desse conhecimento: o que se aprende na sala de aula chega ao ambiente coletivo do prédio e provoca uma reorganização dos hábitos de todos os moradores. Não por acaso, foram as crianças, e não o síndico ou um comunicado afixado no mural, que conseguiram mover o ponteiro do engajamento.

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O contraste entre boa vontade e prática é, aliás, um dos maiores gargalos do setor. Pesquisa do Datafolha encomendada pela Abrema aponta que 99% dos brasileiros consideram a reciclagem importante, mas, entre os 54% que afirmam ter coleta seletiva onde moram, 1 em cada 3 (33%) não separa os resíduos recicláveis em casa. No cenário nacional, os números são ainda mais desafiadores: o Panorama dos Resíduos Sólidos de 2024, da Abrema, indica que a reciclagem no Brasil atinge apenas 8% do total de resíduos sólidos urbanos, em boa parte graças ao trabalho de catadores informais, e que 41% dos resíduos produzidos no país, cerca de 28,7 milhões de toneladas, tiveram destinação final ambientalmente inadequada. Já a pesquisa Munic 2023 do IBGE mostra que 60,5% dos municípios com serviço de manejo de resíduos têm coleta seletiva, com a Região Sul liderando, com 81,9%. 

Para o setor condominial, o episódio toca em um dos desafios mais persistentes da convivência em prédios: o descarte inadequado de resíduos. A separação incorreta, o acúmulo de lixo fora dos horários de coleta e o descarte de materiais cortantes ou tóxicos sem cuidado são fontes recorrentes de conflito e de risco à segurança de funcionários da limpeza e coletores. Especialistas em gestão de resíduos apontam que a conscientização é o primeiro passo para implementar qualquer sistema eficaz de coleta seletiva, e que campanhas de educação ambiental, incluindo as que envolvem crianças e adolescentes, ajudam a criar uma cultura de sustentabilidade que se perpetua por gerações. É exatamente essa lógica de "efeito multiplicador" que o caso curitibano materializa.

Há também respaldo legal robusto para a prática, e isso muda o jogo para síndicos. Curitiba possui lei municipal (8.985/1996) que obriga a separação de lixo e resíduos recicláveis nos condomínios, e a Câmara Municipal voltou a debater a separação obrigatória, com o argumento de que não adianta um condomínio separar se o vizinho não faz. Some-se a isso a Política Nacional de Resíduos Sólidos, em vigor desde 2010, e tem-se um arcabouço que transforma a coleta seletiva em obrigação, não em escolha de bom senso. Para administradoras e síndicos, isso significa que o tema carrega risco jurídico latente, com potencial de penalização em caso de descumprimento, além de impacto direto nos custos operacionais de remoção de resíduos. 

O caso do condomínio curitibano oferece uma lição prática que vai além da boa notícia. Ele demonstra que programas de educação ambiental incorporados à rotina do prédio, com apoio do síndico e do conselho, tendem a ser mais eficazes do que comunicados isolados ou advertências. Quando o engajamento parte dos próprios moradores, e especialmente das crianças, que cobram coerência dos adultos, a adesão deixa de ser uma obrigação burocrática e se torna parte da identidade da comunidade. Para o síndico atento, fica o recado: investir em conscientização não é despesa, é prevenção de conflitos, redução de custos com gestão de resíduos, conformidade legal e valorização do empreendimento.

 

Fonte: G1

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Escrito por

Gabriele Fiel

Colunista do Portal SBM.

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