O golpe silencioso das falsas dedetizações que já causou prejuízo de R$ 118 mil no Leblon.
Rio de Janeiro — A prisão de um homem acusado de aplicar golpes por meio de falsas dedetizações em imóveis de luxo no Leblon, na Zona Sul carioca, reacendeu o alerta sobre a vulnerabilidade de condomínios residenciais diante de empresas clandestinas que atuam no setor de manutenção predial. O suspeito foi detido na sexta-feira, 22 de maio, dentro de um apartamento onde tentava executar mais uma falsa aplicação de controle de pragas, segundo informações divulgadas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. A investigação aponta que o grupo criminoso utilizava uma empresa de fachada para convencer moradores e síndicos a contratar serviços recorrentes e desnecessários, cobrados por valores muito acima do mercado.
De acordo com a 14ª DP (Leblon), a quadrilha vinha sendo monitorada desde abril após denúncias registradas por vítimas da região. Os criminosos ofereciam inicialmente serviços aparentemente legítimos de dedetização e, após conquistar a confiança dos moradores, passavam a impor supostas manutenções mensais obrigatórias, alegando riscos sanitários inexistentes ou problemas estruturais fictícios. Em muitos casos, os pagamentos eram realizados imediatamente por cartão, dentro dos próprios apartamentos, dificultando a contestação posterior das cobranças.
No momento da prisão, os agentes apreenderam uma máquina de cartão e documentos que continham registros de cobranças consideradas incompatíveis com os valores praticados pelo mercado de controle de pragas urbanas. Apenas uma das vítimas identificadas acumulou prejuízo estimado em R$ 118 mil. A polícia também investiga a participação do suspeito em outro caso semelhante envolvendo um morador de 80 anos, também residente da Zona Sul, que teria perdido cerca de R$ 79 mil.
O caso evidencia uma tendência que preocupa administradoras condominiais e especialistas em segurança patrimonial: o crescimento de golpes sofisticados associados a serviços técnicos de manutenção predial. Empresas falsas ou sem qualificação formal têm se aproveitado da necessidade constante de manutenção em condomínios para explorar moradores, principalmente idosos e proprietários de imóveis de alto padrão. A prática se tornou mais comum nos últimos anos com o aumento das contratações terceirizadas de serviços como dedetização, limpeza de caixas d’água, inspeções elétricas e manutenção hidráulica.
No setor condominial, a dedetização periódica é uma exigência sanitária importante, especialmente em grandes centros urbanos. Entretanto, especialistas alertam que muitos síndicos e moradores ainda contratam prestadores sem verificação adequada de registros profissionais, alvarás sanitários ou histórico comercial. Em condomínios menores, onde a contratação costuma ocorrer de maneira mais informal, o risco é ainda maior. A ausência de protocolos internos de validação de fornecedores abre espaço para fraudes financeiras e até para riscos à saúde dos moradores, já que produtos químicos sem controle podem ser utilizados indevidamente.
Além do impacto financeiro direto, episódios como o do Leblon ampliam a preocupação com a responsabilidade civil dos condomínios. Caso um prestador irregular cause danos aos moradores, contaminação ambiental ou acidentes dentro das unidades, o condomínio poderá enfrentar disputas judiciais envolvendo falhas de fiscalização e contratação. Administradoras do setor já vêm reforçando orientações para que síndicos exijam contratos formais, notas fiscais, licença sanitária municipal e comprovação técnica das empresas contratadas.
Outro ponto que chama atenção é o perfil das vítimas. A investigação da Polícia Civil identificou idosos entre os principais alvos da quadrilha, um padrão frequentemente observado em crimes de estelionato ligados a serviços residenciais. Criminosos costumam explorar o medo de contaminações, infestação de pragas ou danos estruturais para pressionar decisões rápidas e pagamentos imediatos. Em condomínios com grande população idosa, especialistas recomendam que qualquer contratação de serviço técnico seja previamente comunicada à administração predial.
O episódio também pode acelerar discussões sobre mecanismos de certificação e controle mais rígidos para empresas que atuam no mercado de manutenção condominial. Entidades do setor imobiliário e associações de síndicos defendem há anos a criação de cadastros públicos de fornecedores certificados, além da ampliação de campanhas educativas voltadas à prevenção de golpes em condomínios.
As investigações continuam para identificar outros integrantes da organização criminosa e possíveis novas vítimas. Até o fechamento desta edição, a Polícia Civil não havia informado quantos condomínios podem ter sido afetados pelo esquema. Para síndicos e administradores, o caso serve como alerta sobre a necessidade de revisar protocolos internos de contratação e fiscalização de serviços terceirizados, especialmente em condomínios de médio e alto padrão, onde o potencial financeiro das fraudes costuma ser maior.
Fonte: O Dia