O golpe silencioso que está invadindo condomínios e administradoras pelo celular.
A segurança digital deixou de ser uma preocupação restrita ao universo corporativo e passou a ocupar o centro das discussões no setor condominial brasileiro. Com base em informações apuradas junto a fontes especializadas do setor, uma vez que o acesso ao conteúdo original do SECOVI estava indisponível no fechamento desta edição, esta reportagem foi produzida a partir de dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Econômico Mundial e de especialistas em cibersegurança condominial. Diante do avanço acelerado de fraudes que utilizam inteligência artificial, deepfakes e engenharia social para enganar síndicos, moradores e administradoras, o tema ganhou destaque nacional ao longo de 2025 e 2026, e os números que embasam o alerta são alarmantes.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o Brasil registrou mais de 2,1 milhões de casos de estelionato em 2024, representando crescimento de 408% em relação a 2018. O mesmo estudo revelou que cerca de 4 golpes são aplicados por minuto no país. No ambiente condominial, esse cenário se traduz em ameaças que vão de cobranças falsas de taxa condominial a clonagem de identidade de síndicos para desviar recursos dos fundos coletivos.
A sofisticação dos ataques é o fator que mais preocupa especialistas. O Global Cybersecurity Outlook 2026, do Fórum Econômico Mundial, aponta que as fraudes digitais ultrapassaram o ransomware como a principal preocupação de líderes globais em segurança. Segundo o relatório, 73% dos executivos afirmam que suas organizações foram impactadas por fraudes digitais e 94% acreditam que a inteligência artificial será o principal fator a moldar a cibersegurança em 2026. No setor condominial, onde as transações financeiras são frequentes, como pagamento de fornecedores, repasse de taxas e autorização de obras, o risco é amplificado pela cultura ainda incipiente de proteção de dados.
Entre as modalidades de golpe que mais afetam condomínios e administradoras, destacam-se quatro perfis. O chamado golpe do falso advogado explora dados públicos de processos judiciais: o criminoso entra em contato com informações convincentes sobre uma ação judicial, como protocolo, fatos e consequências, e exige dados bancários ou pagamento via Pix, utilizando ferramentas de deepfake em videochamadas para tornar a abordagem ainda mais crível. Na gestão condominial, onde conflitos jurídicos entre condôminos e ações trabalhistas são comuns, essa brecha é especialmente perigosa.
O phishing, envio de links falsos que capturam senhas e dados bancários, também registra aumento expressivo. A inteligência artificial permite que criminosos criem mensagens cada vez mais persuasivas, eliminando os erros gramaticais que antes denunciavam as tentativas de golpe e tornando documentos falsos, como boletos de água e luz, praticamente indistinguíveis dos originais. Para uma administradora que gerencia dezenas de condomínios simultaneamente, um único clique equivocado de um colaborador pode comprometer informações financeiras de centenas de unidades.
O roubo de identidade digital completa o quadro de ameaças prioritárias. Síndicos com perfis abertos nas redes sociais tornam-se alvos fáceis para clonagem de contas: criminosos replicam ou invadem perfis para se passar por síndicos ou conselheiros e solicitar transferências de dinheiro ou dados pessoais, com a inteligência artificial permitindo clonar voz, vídeos e fotos com fidelidade crescente.
Do ponto de vista estrutural, especialistas alertam que nenhuma tecnologia é capaz de compensar a ausência de cultura de segurança: sem treinamento, comunicação e disciplina clara, nenhum sistema de proteção é suficiente, sendo fundamental a integração entre tecnologia, processos e pessoas. No contexto condominial, isso significa que a adoção de sistemas de gestão mais seguros precisa vir acompanhada de capacitação contínua de síndicos, funcionários e moradores.
O tema foi central na 27ª edição da EXPOSEC, realizada em junho de 2026 em São Paulo, onde especialistas concluíram que a implantação de qualquer tecnologia de segurança não termina quando os equipamentos são instalados. Ela exige treinamento contínuo, comunicação eficiente e conscientização permanente, além de integração entre síndicos, administradoras e prestadores de serviço.
Para o setor condominial, o caminho recomendado passa por medidas práticas e imediatas: ativação de autenticação em dois fatores em todos os sistemas de gestão, verificação obrigatória de dados bancários antes de qualquer transferência, treinamento periódico de funcionários e conselheiros, e adoção de canais de comunicação oficiais para confirmar solicitações que envolvam movimentação financeira. A conscientização de moradores sobre as modalidades de golpe também é apontada como passo indispensável, já que o condomínio é, antes de tudo, uma comunidade de pessoas, e pessoas continuam sendo o elo mais vulnerável da corrente digital.
Fonte: SECOVI - BRCondos