Prefeitura de SP tenta barrar segregação em condomínios e acende alerta no setor imobiliário.
São Paulo vive uma nova disputa urbanística e social envolvendo os chamados “subcondomínios”, modelo cada vez mais comum em empreendimentos imobiliários que misturam apartamentos populares e unidades de alto padrão dentro do mesmo complexo residencial. A polêmica ganhou força nesta semana após a Prefeitura de São Paulo passar a restringir projetos que separam moradores de baixa renda de áreas comuns como piscinas, salões de festas, quadras e espaços de lazer. A medida colocou a gestão municipal em rota de colisão com incorporadoras e entidades do setor imobiliário, que alegam insegurança jurídica e possível aumento das despesas condominiais para famílias enquadradas em habitação popular.
O debate ocorre em meio às investigações conduzidas pela CPI da Habitação na Câmara Municipal de São Paulo, que analisou possíveis distorções envolvendo imóveis destinados à Habitação de Interesse Social (HIS) e Habitação de Mercado Popular (HMP). Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, empreendimentos recentes passaram a adotar divisões físicas e operacionais para separar moradores de diferentes faixas de renda. Em alguns casos, os acessos, elevadores, portarias e áreas de convivência são distintos, criando uma dinâmica que críticos classificam como segregação social institucionalizada dentro do próprio condomínio.
A prefeitura sustenta que áreas comuns não podem ter uso restrito para apenas parte dos moradores quando o empreendimento integra um único condomínio. O entendimento passou a impactar diretamente a aprovação de novos alvarás e projetos imobiliários na capital paulista. A gestão do prefeito Ricardo Nunes avalia que o modelo fere princípios urbanísticos e amplia desigualdades em empreendimentos beneficiados por incentivos públicos e regras especiais de zoneamento destinadas justamente à ampliação do acesso à moradia.
Do outro lado, entidades como o Secovi-SP e a Abrainc afirmam que a interpretação da prefeitura não encontra respaldo claro na legislação federal e municipal. O setor argumenta que os subcondomínios já são reconhecidos juridicamente e que a separação operacional permite reduzir custos de manutenção para moradores de renda mais baixa. Incorporadoras afirmam que, sem a possibilidade de restringir determinadas áreas de lazer, despesas como manutenção de piscinas, academias e estruturas premium seriam diluídas entre todos os condôminos, elevando a taxa mensal paga pelas famílias beneficiadas por programas habitacionais.
A controvérsia reacende um debate antigo sobre urbanismo, inclusão social e o próprio conceito de moradia popular em regiões valorizadas da cidade. Nos últimos anos, São Paulo ampliou mecanismos de incentivo para construção de HIS e HMP em bairros centrais e áreas nobres, permitindo maior potencial construtivo para empreendimentos que incluíssem unidades destinadas a famílias de baixa renda. Na prática, porém, parte do mercado passou a desenvolver estratégias para manter separações internas entre os diferentes perfis de moradores, reduzindo o contato social e preservando diferenciações típicas de empreendimentos de luxo.
Especialistas em direito urbanístico avaliam que a discussão pode ter repercussões nacionais. Isso porque outras capitais brasileiras vêm adotando políticas semelhantes de incentivo à habitação social em áreas valorizadas. Caso São Paulo endureça definitivamente as regras contra segregações internas, o entendimento poderá servir de referência para novos marcos regulatórios em municípios com forte expansão imobiliária. Administradoras condominiais e síndicos também acompanham o caso com atenção, já que eventual mudança nas regras pode alterar convenções condominiais, critérios de rateio e responsabilidades administrativas futuras.
O tema ainda possui forte impacto reputacional para o mercado imobiliário. A repercussão pública da existência de áreas “exclusivas” para moradores de maior renda levantou críticas de movimentos de moradia e urbanistas, que apontam risco de institucionalização de desigualdades dentro de empreendimentos financiados por incentivos públicos. Ao mesmo tempo, incorporadoras argumentam que a previsibilidade econômica dos projetos depende da possibilidade de modular custos e estruturas internas conforme o perfil dos compradores.
Segundo informações disponíveis até o fechamento desta edição, não há definição final sobre eventual revisão do entendimento da prefeitura. O embate deve avançar para discussões técnicas e jurídicas envolvendo secretarias municipais, Câmara Municipal e representantes do setor imobiliário. Para síndicos e administradoras, o caso acende um alerta importante: empreendimentos híbridos e condomínios mistos tendem a se tornar um dos principais focos de disputa regulatória e judicial no mercado condominial brasileiro nos próximos anos.
Fonte: Folha de São Paulo