Quase 48 mil afetados: furtos de cabos chegam a condomínios do Bom Fim e de outros bairros de Porto Alegre.
Um condomínio da Rua Vasco da Gama, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, teve três furtos de cabos de energia só em 2026. Dois deles aconteceram com menos de 15 dias de diferença. Moradores e o síndico profissional Luciano Kamradt relataram o caso em reportagem do Diário Gaúcho publicada no domingo (27 de setembro). Ele mostra um ponto fraco pouco discutido na gestão predial: a rede elétrica privada subterrânea, que liga o edifício ao ponto de alimentação e é responsabilidade do próprio condomínio.
No prédio da Vasco da Gama, a fiação sai de uma caixa na calçada do outro lado da rua e passa por baixo do solo até a edificação. É nesse trecho que os criminosos agem, sempre de madrugada, quando há pouco movimento. Segundo Kamradt, a ação é sempre igual: dois homens com mochilas fingem revirar lixeiras e, quando a rua fica vazia, abrem as tampas de acesso, cortam o cobre e fogem. Na ocorrência mais recente, o edifício ficou uma manhã inteira sem luz. Com o elevador parado, moradores idosos com dificuldade de locomoção tiveram de usar as escadas. De acordo com o síndico, religar a energia leva, em média, de sete a oito horas de trabalho.
O condomínio já tentou várias proteções. Depois de um dos furtos, as tampas das caixas de passagem foram soldadas. Na ação seguinte, os ladrões quebraram o piso ao redor e arrancaram a estrutura mesmo assim. Parte do cobre foi trocada por alumínio, que vale menos na revenda, mas os criminosos cortaram os cabos novos e levaram só os trechos que ainda eram de cobre. Em outro episódio, um dos envolvidos chegou a subir em um poste para cortar a ligação pela parte de cima. Kamradt administra prédios em várias regiões da Capital e diz ter registrado casos parecidos nas ruas Barros Cassal, Miguel Tostes e Garibaldi.
O caso faz parte de um problema maior. Segundo a CEEE Equatorial, furtos de fios e cabos afetaram 47.784 clientes em Porto Alegre entre janeiro e junho de 2026, uma alta de 11,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Petrópolis, Jardim Botânico, Santo Antônio, Santana, Centro e Floresta estão entre os bairros com mais ocorrências. A distribuidora diz que está ampliando o uso de uma tecnologia de rastreamento que funciona como um "DNA" dos materiais: ela permite identificá-los mesmo depois de cortados, raspados ou derretidos. Já a Brigada Militar afirma que os índices estão caindo desde janeiro e que o 9º Batalhão reorganizou o efetivo para concentrar operações nas madrugadas.
Todo síndico precisa saber também a quem cabe investigar. Segundo o delegado Raul Souza, da 17ª Delegacia de Polícia, furtos de fiação em área privada ficam com a delegacia do bairro. No Bom Fim, é a própria 17ª DP. Já os furtos de cabos da rede pública, que pertencem à concessionária, são investigados pela Delegacia de Repressão aos Crimes contra o Patrimônio (DRCP), do Deic. Essa delegacia cuida dos casos de maior porte, como organizações criminosas e receptação de grandes volumes. Na prática, quando a rede furtada é privada, o reparo fica por conta do condomínio, além do trabalho de registrar cada ocorrência.
Para o setor condominial, o caso mostra como um crime de rua vira um problema de gestão, orçamento e segurança interna. Além do custo de repor os cabos, a falta de luz para elevadores, bombas de recalque, portões automáticos, câmeras e controle de acesso, que são justamente os equipamentos que protegem o prédio. Furtos repetidos também tendem a pesar nas discussões sobre fundo de reserva, cobertura de seguro e investimento em monitoramento externo.
A polícia ainda aguarda levantamentos do setor de inteligência e da 17ª DP. Enquanto isso, síndicos de bairros com histórico de furtos devem mapear o caminho da própria rede subterrânea, avaliar câmeras voltadas para as caixas de passagem, revisar as apólices de seguro e registrar cada ocorrência pelo 190. Segundo a Brigada Militar, esses registros orientam a distribuição do policiamento.
Fonte: Diário Gaúcho