Rio de Janeiro: síndica é agredida por moradora horas após vencer reeleição.
No Rio de Janeiro, a síndica profissional Renata Simão Barbosa registrou boletim de ocorrência após relatar ter sido agredida fisicamente, ameaçada e perseguida por uma moradora e o marido dela, horas depois de ser reeleita para o cargo por ampla maioria dos condôminos. O episódio ocorreu no dia 25 de julho, logo após uma assembleia de prestação de contas que confirmou a permanência de Renata na gestão do condomínio e aprovou também a nova composição do conselho.
Segundo o depoimento prestado por Renata às autoridades, os atritos com a moradora já existiam antes da reunião. A gestora relata que vinha sendo procurada de forma insistente, com mensagens que questionavam sua continuidade no cargo e criticavam a forma como conduzia a administração do prédio. A síndica afirma que a relação já era desgastada havia algum tempo, mas que a tensão se intensificou depois que o resultado da votação confirmou sua reeleição por ampla margem, junto com a aprovação do conselho.
De acordo com o relato, ao deixar a assembleia e retornar ao condomínio onde reside, Renata teria sido seguida por um casal em uma motocicleta. As agressões, segundo ela, tiveram início na área externa do prédio, diante de outros moradores. Pessoas que estavam no local teriam tentado intervir e afastar as duas mulheres, mas o marido da moradora teria pedido que a situação fosse resolvida entre elas. Uma vizinha teria conseguido retirar a síndica do confronto, mas, segundo Renata, a porta do prédio ainda não havia se fechado quando as agressões continuaram no hall de entrada.
O caso foi registrado junto às autoridades policiais e segue em investigação. Imagens de câmeras de segurança do condomínio, além de testemunhos de moradores presentes no momento, foram reunidos para subsidiar a apuração.
A repercussão do episódio levou o Clube W Condo, comunidade voltada a mulheres que atuam no mercado condominial, a divulgar nota de repúdio e manifestar solidariedade à síndica. Para a entidade, casos de agressão, ameaça e intimidação contra síndicos e síndicas não podem mais ser tratados como fatos isolados, e o setor vive um momento de crescente preocupação com a segurança de quem exerce a função.
O episódio no Rio se soma a uma sequência de casos de violência contra gestores condominiais registrados em diferentes estados nos últimos anos. Em Águas Claras, no Distrito Federal, um síndico chegou a ser levado à UTI com traumatismo craniano após ser agredido dentro da academia do próprio condomínio. No interior de São Paulo, síndicos foram assassinados no exercício da função, e no Rio de Janeiro já houve registro de subsíndico morto após um desentendimento com morador. Esses episódios têm alimentado o debate sobre a falta de proteção institucional para uma categoria que hoje reúne mais de 420 mil profissionais em atividade no país, segundo dados da Associação Brasileira de Síndicos e Síndicos Profissionais.
Do ponto de vista jurídico, o Código Penal já prevê instrumentos que podem amparar síndicos em situações como essa. A Lei do Stalking, em vigor desde 2021, tipifica a perseguição reiterada que ameace a integridade física ou psicológica de alguém, com pena de reclusão de seis meses a dois anos, além de multa. Agressões físicas configuram lesão corporal, e ameaças também podem ser enquadradas criminalmente, independentemente de a vítima registrar ou não boletim de ocorrência formal. No Congresso Nacional, o Projeto de Lei nº 3.533/2023 tramita justamente para criar tipificações mais específicas para crimes cometidos contra síndicos no exercício do cargo, um sinal de que o Legislativo já reconhece a lacuna de proteção denunciada pelo setor.
A profissionalização da função de síndico nas últimas décadas trouxe mais técnica e responsabilidade para a gestão condominial, mas também expôs esses profissionais a um desgaste que vai além das planilhas financeiras e da manutenção predial. Casos como o de Renata reacendem a discussão sobre protocolos de segurança para reuniões de assembleia, para o atendimento presencial de condôminos insatisfeitos e para a atuação diante de conflitos que extrapolam divergências administrativas e resvalam para a agressão pessoal.
Para o setor, o episódio reforça a necessidade de os condomínios adotarem medidas preventivas, como a presença de testemunhas em conversas sensíveis, a preservação de imagens de câmeras de segurança e o registro formal de qualquer ameaça, ainda que verbal. Administradoras e associações da categoria também têm sido cobradas a oferecer suporte jurídico e psicológico mais estruturado a síndicos que enfrentam esse tipo de situação. Enquanto a investigação sobre o caso carioca segue em andamento, síndicos, moradores e administradoras acompanham o desfecho como um novo capítulo de um debate que já não pode mais ser ignorado pelo mercado condominial.
Fonte: Sindiconet