Síndico de Caldas Novas preso por matar corretora também desviava dinheiro do condomínio.
Caldas Novas (GO) — Preso desde o fim de janeiro sob acusação de matar a corretora de imóveis Daiane Alves de Souza, de 43 anos, o síndico Cleber Rosa de Oliveira, 49, foi indiciado nesta quinta-feira (10) por um segundo crime: o desvio de mais de R$ 106,4 mil dos cofres do condomínio onde morava e exercia a função. Segundo inquérito da Polícia Civil de Goiás obtido pela TV Anhanguera, o síndico e o filho dele, Maicon Douglas, usaram recursos da associação de moradores para bancar despesas pessoais, e não da coletividade, uma prática que investigadores classificam como apropriação indevida de patrimônio condominial.
De acordo com o documento policial, R$ 25,2 mil dos valores desviados foram gastos em postos de combustível e outros R$ 4,4 mil em manutenção de veículos, mesmo o condomínio não possuindo carro próprio registrado em seu patrimônio, um dos indícios que chamaram atenção dos investigadores. A lista de despesas pessoais pagas com dinheiro da associação inclui ainda R$ 3 mil em contas de planos telefônicos contratados entre 2023 e 2025, R$ 28,1 mil usados para quitar escrituras de imóveis em nome de Cléber e R$ 2,6 mil recebidos pelo aluguel irregular de um apartamento que ele alugou a terceiros como se fosse próprio.
O inquérito aponta ainda que R$ 18 mil do total desviado foram usados para pagar o escritório de advocacia que atuou na defesa do próprio Cléber no início do processo pela morte da corretora, o valor teria sido transferido primeiro para a conta de Maicon Douglas e, na sequência, repassado à banca de advogados, o que também levou o filho do síndico a ser indiciado.
O esquema começou a ser identificado depois que uma nova gestão assumiu a presidência da associação de moradores e estranhou uma sequência de transferências via Pix para Maicon Douglas. "A partir de então, verificou outras coisas que também estranhou, contratou auditoria externa, que apontou uma série de inconsistências", relatou à TV Anhanguera o delegado Tiago Ferrão, responsável pelo caso. Cléber responde agora por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e uso indevido de patrimônio de terceiros, e segue preso desde janeiro.
O crime que motivou a primeira prisão do síndico expôs, meses antes, outra fragilidade da gestão condominial: o uso do sistema de câmeras de segurança do próprio prédio para monitorar de forma inadequada uma moradora. Daiane desapareceu em 17 de dezembro após descer ao subsolo do edifício para verificar a caixa de energia de seu apartamento. Dias depois de o corpo ser encontrado em uma área de mata a 15 quilômetros de Caldas Novas, local indicado pelo próprio Cléber após a prisão, a perícia recuperou um celular da vítima com um vídeo do momento do ataque, gravado pelas câmeras internas do condomínio. Segundo a polícia, as imagens mostram o síndico à espera da corretora, de luvas, o que indicaria premeditação.
Por trás da tragédia, a investigação identificou uma disputa antiga: Cléber e Daiane acumulavam doze processos na Justiça, decorrentes de desentendimentos sobre a administração de seis apartamentos pertencentes à família da corretora, imóveis que antes eram geridos pelo síndico e passaram, em determinado momento, para a gestão da própria Daiane. Antes de ser encontrada morta, ela chegou a denunciar o síndico ao Ministério Público de Goiás por perseguição, alegando ter sido vigiada pelo sistema de monitoramento do prédio e submetida a constrangimentos.
O caso, embora extremo, reacende um alerta recorrente no mercado condominial brasileiro: a concentração de poder financeiro nas mãos de um único síndico, sem mecanismos efetivos de fiscalização, é uma porta aberta para desvios que só costumam ser descobertos por acaso, como no episódio de Caldas Novas, identificado a partir da desconfiança de uma nova diretoria. Especialistas em gestão condominial costumam apontar a ausência de conselho fiscal atuante, a falta de prestação de contas periódica e a inexistência de auditorias externas independentes como fatores que favorecem esse tipo de fraude, sobretudo em condomínios menores, onde o síndico frequentemente acumula funções administrativas e financeiras sem qualquer segunda instância de checagem.
Para síndicos profissionais, administradoras e moradores, o episódio reforça a importância de rotinas básicas de transparência: extratos bancários acessíveis a todos os condôminos, contratação de auditoria externa independente do síndico em exercício, rodízio ou fiscalização ativa do conselho fiscal e uso de sistemas de gestão financeira que registrem e justifiquem cada movimentação de recursos da associação. Casos como o de Caldas Novas, ainda que hoje soem excepcionais pela gravidade do crime associado, servem de lembrete de que o controle financeiro de um condomínio não deve depender exclusivamente da confiança pessoal depositada em quem ocupa o cargo de síndico, e sim de mecanismos institucionais capazes de identificar irregularidades antes que o prejuízo passe de seis dígitos.
Fonte: G1